Turismo de observação de aves: atividade atrai milhões de pessoas e impulsiona a economia local e a ciência

Ação que une excursionismo com a observação da natureza tem número estimado de 100 milhões de praticantes

 

Por /Jornal da USP

 

Imagine viajar milhares de quilômetros apenas para observar aves por alguns minutos. Para muitas pessoas isso pode parecer incomum, mas essa é uma realidade para um número crescente de turistas ao redor do mundo. A observação de aves, conhecida internacionalmente como birdwatching, tornou-se uma das atividades de grande destaque no turismo de natureza. O número aproximado de praticantes mundiais pode chegar a 100 milhões de pessoas, e contribui para a valorização de áreas naturais, especialmente aquelas ricas em biodiversidade.

 

O turismo de observação de aves se enquadra no grande segmento de turismo de observação de fauna que compreende atividades turísticas voltadas à contemplação de animais em seus hábitats naturais, buscando proporcionar experiências de contato e aprendizado sobre a vida silvestre. Entre as diversas modalidades existentes, como observação de mamíferos marinhos, primatas e grandes animais, a observação de aves ocupa posição de destaque. Isso ocorre porque as aves estão presentes em praticamente todos os ecossistemas do planeta, apresentam enorme diversidade de espécies, são bonitas e cantam, e podem ser observadas de forma fácil, sem a necessidade de equipamentos complexos ou grandes deslocamentos.

 

Aves brasileiras

 

O Brasil possui condições privilegiadas para essa prática. Segundo dados de 2021 do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO), o País abriga 1.971 aves. Dessas, quase 300 são endêmicas, ou seja, existem somente aqui. Isso faz com que o País seja, com segurança, o segundo país com mais diversidade, abrigando por volta de 17% de todas as espécies conhecidas até o momento. Regiões como o Pantanal, a Amazônia, a Mata Atlântica, o Cerrado e áreas úmidas do Sul atraem observadores nacionais e internacionais interessados em registrar espécies raras, endêmicas ou ameaçadas de extinção. Em muitos casos, pequenas localidades passaram a receber turistas justamente em função de sua riqueza ornitológica, gerando renda e oportunidades econômicas para as comunidades locais.

 

Alexandre Panosso Netto, professor de Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, comenta que a atividade ficou bem conhecida em 2011 com o lançamento do filme The Big Year, que mostra uma competição entre três homens observadores de aves nos EUA. “No Brasil a atividade é promovida desde 2006 no Encontro Brasileiro de Observação de Aves, conhecido como Avistar, que ocorre anualmente e visa a promover a observação de aves na natureza, valorizando o turismo responsável e a ciência cidadã.”

 

Praticantes e desafios

 

“Geralmente o turista que pratica esse tipo de atividade tem elevado nível educacional, forte interesse por temas ambientais, nível financeiro privilegiado e disposição para investir tempo e recursos em viagens especializadas. São turistas que valorizam a experiência de aprendizado, a contemplação da natureza e a observação cuidadosa do ambiente. Diferentemente de segmentos voltados ao entretenimento de massa, o observador de aves geralmente busca grupos reduzidos, contato qualificado com guias locais e ambientes preservados. Esses serviços e atividades, desenvolvidos em grupos menores, têm preços elevados, pois, como a demanda é restrita, os custos não se diluem entre os praticantes”, ressalta o especialista.

 

Entretanto, o crescimento desse movimento também levanta desafios importantes. Embora a observação de aves seja frequentemente considerada uma prática de baixo impacto ambiental, ela não está isenta de riscos. “A aproximação excessiva dos ninhos, a utilização inadequada de gravações de cantos para atrair aves, o trânsito fora de trilhas autorizadas e o excesso de visitantes em áreas sensíveis podem provocar estresse aos animais e alterar seu comportamento natural. Em casos extremos, espécies vulneráveis podem abandonar áreas de reprodução ou modificar padrões de alimentação em função da presença humana.”

 

Por essa razão, a sustentabilidade do turismo de observação de aves depende da adoção de princípios éticos e medidas de conservação. Entre as recomendações mais importantes estão manter distância adequada dos animais, evitar interferências nos comportamentos naturais, respeitar áreas restritas, seguir orientações de guias especializados e não utilizar equipamentos sonoros de forma indiscriminada.

 

Benefícios para a sociedade

 

A gestão das áreas visitadas também desempenha papel fundamental. Unidades de conservação, parques nacionais, reservas particulares e áreas protegidas precisam estabelecer limites de visitação, monitorar impactos ambientais e promover programas de educação ambiental para turistas e operadores. “Quando bem planejado, o turismo pode se tornar um importante aliado da conservação, gerando recursos financeiros, fortalecendo a pesquisa científica e ampliando o apoio social à proteção dos ecossistemas”, explica Netto.

 

Além disso, o turismo de observação de aves tem demonstrado potencial para estimular a chamada ciência cidadã. Atualmente, plataformas digitais como o eBird permitem que observadores registrem suas observações e compartilhem dados com pesquisadores, contribuindo para o monitoramento da distribuição das espécies e para estudos sobre migração, reprodução e conservação da biodiversidade. Somente no eBird existem cadastrados mais de 100 milhões de avistamentos ao redor do mundo. Dessa forma, a atividade ultrapassa o simples turismo e lazer e passa a colaborar diretamente com a produção de conhecimento científico.

 

“A observação de aves representa um exemplo de como turismo e conservação da natureza podem caminhar juntos. Quando realizada de forma responsável, a atividade promove experiências significativas para os visitantes, gera benefícios econômicos para as comunidades e fortalece a proteção da biodiversidade”, finaliza.

 

Litoral Norte Paulista

 

Observação de aves em Ilhabela

Por Salim Burihan

 

O turismo de avistamento de aves ganha cada vez mais importância nas cidades do Litoral Norte Paulista. Ubatuba possuí 565 espécies de aves catalogadas e vários locais para observação de pássaros, inclusive, com estrutura para receber observadores e fotógrafos do Brasil e do exterior. A abundância e diversidade de aves é grande no Sertão da Quina, Sertão Folha Seca, na região sul e, também, Fazenda Argelim, no Perequê-Açu.  Na região norte, os pontos ideais de observação ficam no Sertão do Poruba e na Praia da Fazenda.

 

“O Sertão da Folha Seca, na Praia Dura, é referencial mundial na observação de beija flores. O Brasil possui 65 espécies de beija flores, no Sertão da Folha Seca pode-se observar 25 espécies deste tipo de ave”, conta Carlos Rizzo. Ele lembra que se especializou em aves da mata atlântica e que já percorreu todo o litoral entre o Rio Grande do Sul até a Bahia para observar, identificar, fotografar e catalogar as espécies de aves.

 

A ave símbolo de Ubatuba é o Tangará Dançador(Foto), conforme projeto de lei, de autoria do então vereador Charles Medeiros, aprovado pelo legislativo em 2004. “O Tangará possui as cores da bandeira de Ubatuba e, tem o costume caiçara de dançar”, justificou Medeiros, um dos incentivadores da observação de pássaros no município.

 

 

 

 

Ilhabela possui mais de 390 espécies de aves catalogadas, um número que a torna um destino de referência para observação de aves (birdwatching). A ave símbolo de Ilhabela é o papagaio-moleiro (Amazona farinosa), uma espécie de papagaio grande e de plumagem verde com pó branco, escolhida por voto popular em 2015 para representar a rica biodiversidade da ilha. O papagaio-moleiro é um dos maiores papagaios do Brasil e, apesar de estar criticamente ameaçado de extinção no estado de São Paulo, é avistado em grande número em Ilhabela, onde se alimenta de frutas locais.

 

A cidade possui 85% de área preservada pelo Parque Estadual de Ilhabela, considerado Núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO e Área Importante para a Conservação das Aves, pela Birdlife International. O arquipélago abriga as dez maiores montanhas insulares do país, com picos que ultrapassam 1.300 metros de altura, oferecendo múltiplos ambientes e uma rica avifauna com mais de 390 espécies registradas.

 

 

 

Entre elas destacam-se o papagaio-moleiro, o araçari-poca e espécies raras como a jacutinga, o macuco, a coruja-preta, a saíra-sapucaia e o gavião-de-penacho. Ilhabela também permite o avistamento de aves marinhas como o trinta-réis-de-bico-vermelho, e o trinta-réis-real.

 

Em Caraguatatuba, existem 482 espécies catalogadas, segundo o  wikiaves. Existem dois pontos de observação de aves: A trilha de Jequitiba e o Sítio Jacu. A primeira oferece a oportunidade de contemplar as mais belas e raras espécies da Mata Atlântica, em um percurso fácil e plano, em meio à Floresta Ombrófila Densa e preservada. Enquanto a segunda, situada na Tabatinga, é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e oferece observatórios em meio a um bosque de árvores nativas e frutíferas como frutíferas embaúbas, palmitos e figueiras. Ali é possível avistar espécies como: saíra-sete-cores (Tangara seledon), saíra-militar (Tangara cyanocephata), tiê-sangue (Ramphocelus bresilus); surucuá-de-barriga-amarela (Trogon Rufus), entre outros.

 

A ave-símbolo da cidade de Caraguatatuba é a saíra-sete-cores (Foto) e que foi escolhida através de uma eleição promovida pela prefeitura em 2023. Em relação à ave eleita, as considerações deixadas fizeram jus às características marcantes da Saíra-sete-cores, como o destaque para a plumagem colorida que representa bem as cores da serra, do mar e dos rios. Outro fator importante é a sua preferência por ninhos nas famosas bromélias como o ‘Caraguatá’, espécie que deu origem ao nome da cidade.

 

 

As saíras-sete-cores são aves bastante sociáveis, geralmente vistas em bandos e até mesmo bandos mistos, sendo encontradas com frequência em restingas, encostas e comedouros com frutas. Ela é uma espécie monogâmica, ou seja, formam casais, construindo os ninhos e cuidando dos filhotes juntos. Seu nome científico “Tangara”, em tupi, significa dançarino, em razão das acrobacias que faz durante sua busca por alimento.

 

Em São Sebastião/SP, existem catalogadas 414 espécies de aves, de acordo com dados do Wikiaves. São Sebastião também é parada para os apaixonados pela atividade. Em locais como o Núcleo São Sebastião do Parque Estadual Serra do Mar é possível contemplar a biodiversidade local e avistar diversas espécies de aves, dentre elas o Trogon viridis – Surucuá-grande-de-barriga-amarela, que é um Trogoniforme da família Trogonidae, e o Chiroxiphia caudata – tangará, que é uma ave passeriforme da família Pipridae, também conhecido como tangará-dançarino. Os bairros de Maresias e Boiçucanga também são excelentes pontos de observação, assim como o Arquipélago de Alcatrazes

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