Foto acima, catástrofe que atingiu Caraguatatuba em 1967, considerada uma das maiores já ocorridas no país
A Defesa Civil do Estado de São Paulo comemorou 50 anos de existência na última terça-feira, dia 14. A origem da Defesa Civil está diretamente ligada ao aprendizado com grandes eventos adversos. A criação da Defesa Civil no Estado de São Paulo foi impulsionada pela tragédia de Caraguatatuba, no litoral norte, em 1967, quando centenas de pessoas morreram por causa da chuva, e após a dos incêndio no edifício Joelma , em 1974, em São Paulo, que resultou na morte de 187 pessoas e deixou mais de 300 feridos. Foi a partir dessas duas tragédias que o Estado decidiu criar uma estrutura permanente de gestão de riscos.
Em Caraguatatuba, em 18 de março de 1967, a cidade de Caraguatatuba foi atingida por uma tromba d’água. Pedras, lama, terra e árvores desceram das encostas da serra em direção à cidade. A cidade ficou parcialmente destruída, ilhada e sem qualquer comunicação. A Rodovia dos Tamoios foi quase totalmente destruída em seu trecho de serra. Perderam a vida mais de 400 pessoas.

A informação que chamou a atenção das autoridades: a chuva que caiu sobre a cidade em dois dias( 17 e 18 de março) atingiu um índice de precipitação pluviométrica de 580 milímetros. Ou seja, choveu em Caraguatatuba em apenas dois dias a quantidade de chuva acumulada de seis meses. A tragédia foi considerada a pior já ocorrida no país até então.

“Nunca vi coisa igual na minha vida. Isso só ocorre a cada milênio. O que ocorreu em Caraguatatuba foi um evento natural- tromba d’água fato raro. Na história do Brasil nunca ocorreu nada igual”, disse o professor Arthur Casagrande, um dos maiores especialistas do país e do mundo em mecânica de solos e fundações, após visitar a cidade a convite do governo do estado.
Na manhã de 1º de fevereiro de 1974, uma sexta-feira, São Paulo testemunhou uma tragédia: um incêndio no Joelma, edifício comercial de 25 andares na esquina da Rua Santo Antônio com a Avenida 9 de Julho, na região central, matou 189 pessoas e deixou 300 feridos.
Foi a partir deste dois desastres que o governo do estado decidiu criar uma instituição integrada e preparada para prevenir e dar respostas a esses tipos de ocorrências. Surgiu a Defesa Civil do Estado do São Paulo. Ao longo dos seus 50 anos a instituição atuou em todos os tipos de desastres no estado: enchentes, alagamentos, deslizamentos, incêndios e acidentes aéreos.
Mais foi em 2023, que a Defesa Civil enfrentaria uma das maiores tragédias no estado de São Paulo e, novamente, no litoral norte paulista, na cidade de São Sebastião. Na madrugada de 19 de fevereiro de 2023, o céu desabou sobre o município, que recebeu em oito horas, mais de 600 milímetros de chuva, que transformaram ruas em rios e deslizamentos nas encostas, causando a morte de 64 pessoas, 52 delas, na Vila Sahy, na costa sul do município. Cerca de 3 mil pessoas ficaram desabrigadas.

Essa tragédia ocorrida em São Sebastião, obrigou a Defesa Civil a se reinventar, sendo impulsionada a inovar e a evoluir ainda mais. “A gente percebeu uma mudança em todas as fases da atuação da Defesa Civil. Eu acredito que o principal foi na parte tecnológica. Como na aquisição de sirenes, que trouxe uma mudança na preparação da população, a aquisição de radares meteorológicos, a implementação do Cell Broadcast(alerta pelos celulares) , que facilitou demais a comunicação de risco. A gente tem buscado aperfeiçoar com equipamentos, com o centro de gerenciamento de emergência , com o monitoramento das áreas de risco, viaturas…Nos últimos anos temos evoluído muito”, comentou o Major PM Fiorentini, diretor da Divisão de Respostas da Defesa Civil Estadual.

A experiência na tragédia ocorrida m São Sebastião reforçou a importância de planejamento prévio, integração entre órgãos e uso de múltiplos modais de acesso em situações de emergência, como transporte aéreo e marítimo. Também evidenciou a necessidade de atuação junto à população em áreas de risco, sobretudo na conscientização sobre evacuação preventiva, um dos pontos críticos observados durante a operação.

Ao longo dos anos, a Defesa Civil evoluiu para um modelo que prioriza a antecipação de desastres, a proteção da vida e a construção de cidades mais resilientes em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. Desde 2023, o Governo de São Paulo destinou mais de R$ 400 milhões para o fortalecimento da Defesa Civil, com a realização de mais de 250 obras de infraestrutura, entrega de mais de 460 veículos e distribuição de 1,8 mil kits de equipamentos aos municípios, além da implantação de 12 sirenes em áreas de risco. As ações incluem ainda programas estruturantes como o SP Sempre Alerta, com R$ 371,4 milhões em prevenção.
Mais investimentos
Paralelamente à evolução operacional, o Governo de São Paulo ampliou os investimentos em infraestrutura, tecnologia e aparelhamento. Na última terça-feira, foi anunciado um pacote de R$ 195 milhões voltado ao fortalecimento da resiliência das cidades, incluindo a aquisição de oito novos radares meteorológicos, contratação de obras de contenção e drenagem, compra de viaturas e caminhões-pipa, além de novos mapeamentos locais de risco.

Os radares, em especial, representam um avanço estratégico na capacidade de monitoramento e antecipação de eventos climáticos, permitindo maior precisão na emissão de alertas e no acompanhamento de fenômenos extremos. “Para a gente ter esses alertas, você tem que ter um monitoramento com maior precisão. E isso estamos buscando com mais radares”, explicou o coordenador.
O mapeamento de áreas vulneráveis também ganhou escala. Atualmente, o estado conta com mais de mil instrumentos de identificação e classificação de risco, que orientam intervenções estruturais e ações preventivas. Em São Sebastião, por exemplo, novos estudos foram contratados para aprofundar o conhecimento sobre áreas suscetíveis a deslizamentos.
A Defesa Civil estadual também investe na mobilização comunitária como elemento central da prevenção. A criação de Núcleos de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs) em áreas vulneráveis é um exemplo, com a capacitação de voluntários para monitoramento de riscos, orientação da população e apoio em situações de emergência.
No enfrentamento de incêndios durante períodos de estiagem, outro desafio recorrente, o estado estruturou operações sazonais com reforço de equipamentos, contratação de aeronaves e integração com brigadistas de diferentes setores. Em momentos críticos, mais de 20 aeronaves e cerca de 15 mil profissionais atuaram simultaneamente no combate às chamas, evidenciando a capacidade de coordenação do sistema.
