“Foi difícil, eu vi a morte de perto”, conta Samuel Costa, 14 anos após o naufrágio
Por Salim Burihan
Os irmãos caiçaras Isaias e Samuel Costa, ambos de Caraguatatuba, sobreviveram após passarem mais de sete horas no mar, enfrentando ondas , ventos fortes, correnteza e a baixa temperatura da água em alto-mar, quando a lancha em que pescavam foi atingida por uma onda enorme na costa de Ilhabela. O naufrágio ocorreu em 2011, mas o drama vivido em alto-mar, até hoje, 14 nos depois, não saí da memória dos dois. “Achava que não iria sobreviver”, lembra Samuel.
Samuel, hoje, com 60 anos, lembra que ele e seu irmão, Isaias Costa, decidiram ir buscar uma rede de espera que estava montada na costa de Ilhabela. Os dois deixaram a praia do Camaroeiro, em Caraguatatuba, durante a madrugada. Recolheram a rede de espera na ilha e retornavam para Caraguatatuba, quando por volta das 9 horas da manhã, em alto mar, foram surpreendidos por uma onda enorme que virou e afundou a lancha “Isamar”, de cinco metros e meio de cumprimento.
Os dois afundaram juntos com a embarcação, mas a experiência que tinham no mar- os dois são filhos do pescador Dito Costa, já falecido, um dos mais tradicionais de Caraguatatuba e estavam acostumados com vida no mar- eles conseguiram sobreviver ao naufrágio. A embarcação e todos os apetrechos que estavam nela nunca mais foram recuperados.
Isaias e Samuel, saíram nadando juntos, com o objetivo de não se perderem de vista. Por causa do mau tempo, não havia outras embarcações no mar. Um quilômetro depois, por causa da forte correnteza e das condições adversas do mar e do tempo, acabaram se separando.
“Estava muito frio, muitas ondas, forte correnteza e chovia. “A situação era muito difícil, por mais que eu conhecesse o mar e soubesse nadar- nadar com o mar liso é fácil, mas com o mar virado, com forte correnteza, ondas e vento, não é nada fácil. Achava que não iria conseguir sobreviver”, lembra Samuel.
Samuel, na época do naufrágio tinha 45 anos. Seu irmão Isaias, tinha 58 anos. “Nós praticamente nascemos e crescemos no mar, por sermos filhos de pescadores, mas teve uma hora que eu não estava aguentando mais. Meu corpo já estava suportando o desgaste físico de nadar contra a correnteza, o frio e os ventos. As águas vivas me atingiam o rosto quando nadava em direção à praia Martim de Sá, em Caraguatatuba”, relembra.
Samuel contou que quando já não encontrava mais forças para continuar nadado, teve a sorte de encontrar na sua frente, boiando, um galão de plástico. Se agarrou ao galão e procurou seguir em direção até Caraguatatuba. Após descansar apoiado no galão, Samuel continua nadando em direção até Caraguatatuba. Quase sete horas após o naufrágio, por volta das 15 horas, ele conseguiu chegar nadando na Prainha, na região central de Caraguatatuba.
Isaias foi o primeiro a chegar. Após sete horas nadando, chegou exausto a Praia do Camaroeiro. A família Costa não sabia que eles tinham sofrido um naufrágio. Os amigos contaram na época que os dois só se salvaram por conhecerem o mar e serem fortes fisicamente, Samuel jogava futebol e Isaias praticava tênis, na época.
“Foi um milagre de Deus mesmo”, reconhece hoje Samuel. ” Naquele dia, devido as péssimas condições os do tempo e do mar, nenhum pescador tinha saído, nenhum barco tinha ido ao mar. Nós, na verdade, desafiamos o mar e quase morremos. Meu pai, seu Dito Costa, sempre alertava a gente: nunca desafie o mar pois o mar é muito traiçoeiro. O mar provou que ele é que manda. O mar estava muito ruim naquele dia. Não devíamos ter ido ao mar. Foi difícil, eu vi a morte de perto, Desse dia em diante nunca mais saí para pescar com tempo ruim”, comentou.
Bruna

Samuel disse que o caso da jovem Bruna Damaris, de 26 anos, que sobreviveu após ficar à deriva 42 horas em alto-mar, recentemente em Ilhabela, foi um realmente “um milagre de Deus”. “Nossa, ela sobreviveu 42 horas no mar, com água em baixa temperatura, frio, vento, correnteza, sem conhecer o mar. É muito difícil alguém, aguentar dois dias em alto mar, nas condições que ela enfrentou. Apenas, com um colete. Foi um verdadeiro milagre”, contou.
Pescadores

O mar já levou muitos pescadores tradicionais de Caraguatatuba. A primeira morte envolvendo pescadores de Caraguatatuba, que me recordo, foi na década de 60, envolvendo os pescadores Antônio Cruz Arouca, Espanhol e Mazinho. A tempestade chegou, surpreendendo os três, nas proximidades da Ilha do Tamanduá, no dia 12 de setembro de 1961. A canoa virou e os três foram lançados ao mar. Mazinho foi o único que sobreviveu. Ele se amarrou na canoa e ficou a deriva por muitas e muitas horas, até ser localizado. A cidade ficou abalada com a tragédia.
A segunda tragédia com pescadores de Caraguatatuba ocorreu na década de 80. Nela perderam a vida o Kimio e o Valdir Bidico. Os dois, mais o Nelsinho Parrudinho, estavam pescando nas proximidades da Praia da Baleia, na costa sul de São Sebastião, quando o barco virou durante a madrugada. Parrudinho conseguiu se salvar, após nadar por muitas horas em direção a uma das praias sebastianense, onde foi socorrido.
Na década de 90, o pescador Lulu perdeu a vida na Praia da Cocanha, também durante uma tempestade. Segundo consta, Sebastião Antônio de Paula, o Lulu, durante um forte vendaval resolveu ir até a Praia da Cocanha para ver como estava a sua canoa. Ele entrou no barco, veio outra rajada forte de vento, a embarcação virou e Lulu, no acidente, o pescador se enroscou na rede de pesca e acabou morrendo afogado.
Há 15 anos atrás, outro pescador, o Café, também foi surpreendido durante uma tempestade e morreu afogado nas proximidades da foz do Rio Santo Antonio. Há cerca de oito anos, outro pescador, o Catarina, também conhecido como Xuxa, caiu do barco e se afogou na Prainha. A maioria dos pescadores que perderam a vida no mar foram vítimas de tempestades. A maioria saiu para pescar com tempo bom, mas durante a pescaria, o tempo mudou repentinamente e seus barcos acabaram virando. A tragédia anunciada é sempre a mesma, apesar de todo o respeito que o pescador tem pelo mar. “As grandes tragédias são causadas pelo Mar e pelo Fogo”, dizia um antigo pescador.
