Navio Bandero, da Captain Paul Watson Foundation. Foto: CPWF / Sea Shepherd France
O navio Bandero, da Captain Paul Watson Foundation, chegou ao Brasil após participação na operação internacional Krill Wars, realizada na Antártica, e ficará ancorado em Ilhabela (SP) por um período de duas a três semanas. A embarcação esteve envolvida recentemente em ações diretas para interromper a pesca industrial de krill – pequeno crustáceo considerado a base de toda a cadeia alimentar do Oceano Antártico.
Durante a operação, a tripulação do Bandero atuou para interromper atividades de grandes embarcações pesqueiras, incluindo intervenções que duraram mais de cinco horas, em um cenário descrito como um “confronto desigual entre uma pequena embarcação de conservação e uma indústria multibilionária”. O krill, alvo dessas operações, é a base alimentar de baleias, pinguins, focas e diversas outras espécies, e sua retirada em larga escala compromete diretamente o equilíbrio do ecossistema marinho, provocando impactos em toda a cadeia alimentar.
Agora no Brasil, a presença do navio traz à tona uma conexão direta entre o que acontece na Antártica e a vida marinha – inclusive no litoral brasileiro.
“Muitas das baleias que vemos no Brasil percorrem milhares de quilômetros todos os anos após se alimentarem de krill nas águas frias da Antártica. Esse pequeno organismo sustenta diretamente essas gigantes do oceano, que chegam ao nosso litoral para se reproduzir e dar continuidade à espécie. Proteger o krill, portanto, não é apenas preservar um elo da cadeia alimentar, mas garantir a recuperação e sobrevivência dessas baleias e o equilíbrio de todo o ecossistema marinho. Esse é um exemplo claro de como o oceano é um só: o que acontece em uma região impacta diretamente a vida em outra, conectando a Antártica ao Brasil e evidenciando que tudo está interligado”, afirma Nathalie Gil, presidente da Sea Shepherd Brasil.
Pesquisas realizadas em Ilhabela pela especialista Mia Morete, bióloga e fundadora do VIVA Instituto Verde Azul, indicam possíveis mudanças no comportamento desses animais. Observações recentes mostram que a maioria das baleias-jubarte avistadas na região são indivíduos juvenis com condição corporal abaixo do esperado, o que pode estar relacionado à menor disponibilidade de alimento nas regiões antárticas de onde migram. Também foram observados indícios de comportamento de alimentação em áreas tradicionalmente associadas à reprodução, comportamento considerado incomum.
“Estamos observando em Ilhabela casos de baleias juvenis mais magras e aparentemente debilitadas. O registro de comportamento de alimentação em áreas reprodutivas chama atenção e pode indicar alterações na disponibilidade de alimento nas suas áreas de alimentação em regiões polares ”, explica Mia.
Essas baleias fazem parte de populações que se alimentam em regiões da Antártica correspondentes às áreas de pesca 48.2, 48.3 e 48.4, conforme definidas pela Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos (CCAMLR), organismo internacional que reúne países com interesses nos recursos marinhos da região – incluindo a pesca de krill – e do qual o Brasil também é signatário. Durante a operação, o Bandero interceptou duas grandes embarcações da empresa Aker BioMarine em uma área vizinha, a 48.1, igualmente sensível e fundamental para a alimentação de populações de baleias que migram pela costa oeste da América Latina.
Em 2025, pela primeira vez na história, a frota industrial de pesca de krill encerrou a temporada antes do prazo: a cota anual de 620 mil toneladas foi atingida de forma prematura. Esse cenário foi diretamente influenciado pelo vencimento, em 2024, de uma medida de conservação essencial, que distribuía espacialmente as capturas ao longo da temporada. Sem essa regulação, a frota passou a concentrar seu esforço de forma intensiva nos hotspots ecológicos mais sensíveis da Península Antártica.
Em uma das subáreas mais críticas para baleias, focas e pinguins – a Subárea 48.1 -, a atividade de arrasto mais que dobrou em relação à temporada anterior. Em 2024, três baleias-jubarte juvenis morreram enredadas em redes de arrasto de krill. Em março de 2025, outra jubarte foi encontrada morta na rede de um arrasteiro, o que desencadeou uma investigação criminal.
Mesmo após esses episódios, a Noruega, por meio da Aker BioMarine – empresa responsável por 64% das 620 mil toneladas métricas de krill extraídas do Oceano Antártico em 2025 – apresentou à CCAMLR uma proposta para quase dobrar o limite anual de captura, elevando-o para 1,2 milhão de toneladas. Noruega e Chile estão entre os maiores produtores de salmão do mundo – uma indústria altamente dependente do krill como insumo para ração -, respondendo juntos por cerca de 80% da produção global.
Ao mesmo tempo, a CCAMLR encerrou suas negociações sem acordo sobre melhorias na gestão da pesca de krill ou sobre a criação de uma nova Área Marinha Protegida na região da Península Antártica, proposta que conta com o respaldo de mais de 150 estudos científicos.
Nas últimas décadas, a população de krill tem apresentado declínios significativos, com reduções estimadas entre 80% e 90% em algumas áreas do Oceano Antártico. Essa queda é atribuída tanto à intensificação da pesca industrial quanto aos efeitos das mudanças climáticas. Nesse contexto, as alterações de comportamento e condições físicas observadas em baleias no litoral brasileiro levantam hipóteses sobre impactos na disponibilidade de alimento – e possíveis consequências para a recuperação das populações desses animais após o fim da caça comercial, interrompida no Brasil em 1967 e globalmente em 1986.
“Para proteger as baleias, nosso fundador Paul Watson teve que interceptar a grande indústria baleeira até que ela quase deixasse de operar. Mas isso não basta. Agora, sua organização retorna à Antártica para garantir que a principal fonte de sustento desses animais não seja destinada às grandes fazendas de salmão na Noruega e no Chile, nem seja transformada em inúteis cápsulas de vitaminas, em vez de manter o equilíbrio de um ecossistema tão frágil. A briga contra a grande indústria é longa”, diz Nathalie.
A operação Krill Wars tem como objetivo justamente impedir a intensificação dessa atividade. Segundo a líder da campanha, a ativista Lamya Essemlali, o problema já atingiu um nível crítico:
“A pesca de krill é uma bomba-relógio ecológica. Nada justifica explorar uma espécie da qual depende todo um ecossistema. Proteger o krill é proteger baleias, pinguins e a vida no oceano como um todo”, afirma Lamya, presidente da Sea Shepherd França e líder da campanha.
A visitação ao Bandero busca aproximar o público dessa realidade, mostrando de forma acessível como a pressão sobre a vida marinha em regiões remotas desencadeia efeitos que se propagam por todo o oceano, impactando diretamente espécies que também fazem parte do ecossistema brasileiro.
Além da campanha internacional, a experiência também destaca a atuação da Sea Shepherd Brasil no país, com iniciativas como o combate à exploração de tubarões – que são comercializados sob o nome genérico de “cação”-, ações de enfrentamento ao lixo marinho por meio da campanha Ondas Limpas e operações de proteção à fauna aquática na Amazônia.
Durante o período em Ilhabela e São Sebastião, o Bandero estará aberto à visitação pública, incluindo turmas de escolas das redes municipais destas cidades e o público em geral. Os visitantes poderão acessar áreas da embarcação, compreender a problemática envolvendo o krill e sua relação direta com as baleias, conhecer como funcionam as operações no mar e refletir sobre o papel da sociedade na proteção da vida marinha. As visitas devem ser agendadas previamente por meio do evento oficial da organização na plataforma Sympla.
SERVIÇO
Visitação ao navio Bandero
Local: Ilhabela (SP)
Período: de 19/4 a 3/5/2026, em dias pré-determinados
Horários: seis visitações por dia, das 9h às 16h
Inscrições: acesse aqui
IMPORTANTE: A visitação ao Bandero envolve o embarque por meio de escada de cordas – por esse motivo, a experiência não é acessível a todas as pessoas. Atividade permitida para maiores de 12 anos. É obrigatório o uso de calçados fechados e o acesso está sujeito a cadastro prévio. Vagas limitadas.
