Bruna Moura, de 30 anos, é a primeira atleta de Caraguatatuba e do Litoral Norte a disputar os jogos olímpicos de inverno. Em 2022, ela foi convocada para os jogos de Pequim, mas sofreu um acidente dias antes dos jogos e foi substituída.
Por Salim Burihan
A caraguatatubense Bruna Rafaela de Moura, a “Bruna Moura”, fará história quando iniciar sua participação no esqui cross-country na próxima terça-feira, dia 10, nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milhão-Cortina, na Itália. É a primeira atleta de Caraguatatuba e do Litoral Norte Paulista a participar de uma olimpíadas de inverno, que é disputada desde 1924. Bruna disputará a modalidade junto com os atletas Eduarda Ribera e e Manex Silva.
Bruna foi convocada pela primeira vez em 2022, para os jogos de Pequim, onde iria disputar provas na categoria esqui cross-country, de 10km, Sprint e Sprint por equipes, mas sofreu um acidente de carro no dia 27 de janeiro de 2022, próximo à cidade de Obervintl, na Itália. A atleta seguia para a Alemanha, após um período de treinos na Áustria, onde faria os testes RT-PCR exigidos para entrada na China. Bruna sofreu fraturas na ulna (osso do antebraço). A Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) prestou todo o suporte à atleta que foi substituída por Eduarda Ribera.
A caraguatatubense Bruna Moura esperou por quatro anos uma nova convocação e ela veio: Bruna está entre os 14 atletas brasileiros que disputam os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão Cortina 2026, na Itália, iniciados no dia 6, que seguem até o dia 22 deste mês. Trata-se da maior delegação de todos os tempos nos Jogos Olímpicos, segundo o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O recorde anterior de participação do Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno era em Sochi, na Rússia, em 2014, com 13 atletas. O país busca uma medalha inédita na competição.

No esqui-cross country o Brasil participa com Eduarda Ribera, Bruna Moura, e Manex Silva. No esqui alpino, o país tem os atletas Lucas Braathen, Christian Oliveira, Giovanni Ongaro e Alice Padilha. Os atletas Pat Burgener e Agostinho Teixeira competem no snowboard halfpipe e Nicole Silveira será a única atleta brasileira no skeleton. Já no bobsled, Edson Bindilatti, Davidson de Souza (Boka), Luís Bacca, Rafael Souza e Gustavo Ferreira.
Olímpiadas de Milão

A brasileira Bruna Moura, de 30 anos vai finalmente poder estrear em Jogos Olímpicos. Após um grave acidente em 2022, que tirou Bruna dos Jogos Olímpicos de Pequim, a esquiadora garantiu vaga em Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 e chega à Itália como uma das líderes do esqui cross-country do Brasil. Com sequelas físicas e um longo processo de recuperação, Bruna transformou o ciclo olímpico em uma história de adaptação, resiliência e alto rendimento, fechando a temporada com alguns dos melhores resultados da carreira.
“Até hoje em dia eu ainda tenho muitas dores no meu pé esquerdo. Tenho algumas coisas que preciso adaptar, mas isso virou parte da rotina”, afirmou a atleta em coletiva promovida pela CBDN. Segundo ela, a limitação física ditou a estratégia. “O que a gente precisa fazer para amenizar a dor? Ah, hoje não tá dando muito certo, vamos fazer um treinamento um pouco mais de parte superior e tentar deixar o pé relaxar um pouco mais”.
Nas redes sociais, a caraguatatubense postou: “Convocação que representa trabalho, constância e um ciclo construído com muita dedicação no esporte de inverno. Agora, é hora de transformar todo esse caminho em mais um capítulo histórico para o Brasil na neve”.
Esqui Cross Country

A modalidade que Bruna vai competir é o esqui cross country presente em todas as edições dos jogos desde 1924. Os esquis são meios de transporte desde a pré-história. A partir do século XIX, especialmente na Noruega, a prática passou a ser organizada também como esporte. No cross-country, os atletas percorrem longas distâncias na neve, enfrentando subidas e descidas. Em comparação com os esportes de verão, a modalidade se assemelha a uma corrida de rua, mas disputada sobre a neve.
As provas de esqui cross-country são divididas em dois estilos, cada um com técnicas específicas. No estilo clássico, os atletas devem manter os dois esquis paralelos durante todo o percurso, com o movimento das hastes sendo feito de forma simultânea. Já no estilo livre, os esquiadores podem alternar as pernas e usar diferentes angulações. Essa técnica também é chamada de skating, por lembrar os movimentos da patinação no gelo.
Nos Jogos Olímpicos de Inverno, os atletas disputam quatro provas individuais. No sprint, todos fazem uma tomada de tempo em um percurso entre 1 km e 1,5 km. Os 30 melhores avançam para baterias eliminatórias até a definição do campeão. Na prova individual, os atletas percorrem 10 km, largando de forma alternada, geralmente a cada 30 segundos. O esquiador com o menor tempo total conquista a medalha de ouro.
O esquiatlo é uma prova de 20 km, em que os atletas percorrem metade do trajeto no estilo clássico e a outra metade no estilo livre. Já a largada em massa, disputada em 50 km, é a prova mais longa do programa olímpico e exige extrema resistência física. Considerada a maratona da Olimpíada de Inverno, ela tem seu pódio realizado durante a Cerimônia de Encerramento, assim como acontece com a maratona nos Jogos Olímpicos de Verão.
Além das provas individuais, o esqui cross-country conta com disputas por equipes. No revezamento 4×7,5 km, cada país escala quatro atletas que se revezam para completar um percurso total de 30 km. Já o sprint por equipes é disputado em duplas, com os atletas se alternando em voltas em um circuito curto, o mesmo utilizado no sprint individual.
O esqui cross-country esteve presente em todas as edições dos Jogos Olímpicos de Inverno desde 1924. As mulheres passaram a competir a partir de Oslo-1952. Em Milão-Cortina 2026, haverá um marco importante: homens e mulheres disputarão as mesmas distâncias em todas as provas, promovendo igualdade no programa olímpico da modalidade. No feminino, os principais nomes do esqui cross-country são: Therese Johaug, da Noruega, dona de seis medalhas olímpicas e 23 medalhas em Campeonatos Mundiais; a americana Jessie Diggins e as suecas Frida Karlsson e Ebba Andersson.
O Brasil participa do esqui cross-country nos Jogos Olímpicos de Inverno desde Salt Lake City(EUA)-2002. Naquela edição, Franziska Becskehazy terminou em 57º lugar nos 10 km femininos, enquanto Alexander Penna ficou na mesma posição nos 50 km masculinos. Em 2006, surgiu um dos nomes mais importantes da história olímpica brasileira: Jaqueline Mourão, atleta brasileira com cinco participações em Jogos Olímpicos, se tornando a maior atleta brasileira no esqui cross-country. Como o país não tem neve, o esqui cross-country se desenvolveu no Brasil por meio do rollerski, versão do esporte praticada com esquis de rodinhas no asfalto ou no concreto.
Bruna, exemplo de superação

Bruna Moura concedeu uma entrevista à jornalista Por Bruna Campos, do GE(Globo Esporte), na quinta-feira, dia 7, contando sobre sua participação nos jogos de inverno deste ano e do acidente que a tirou dos jogos de Pequim, em 2022. Por Bruna Campos.
Acidente em 2022

” Eu estava indo para os Jogos Olímpicos. Era real. Eu ia para Pequim! Naquele momento, tudo tinha perdido sentido, mas com o tempo você vai retomando a vida, tentando viver aquilo em que acredita. Desde então, faço acompanhamento e tratamento psicológico. Não só para lidar com o que aconteceu em 2022, mas também para conseguir focar na temporada e na classificação para 2026″ contou à jornalista Por Bruna Campos, do GE(Globo Esporte)
Segundo Bruna, o impacto causado pelo acidente em janeiro de 2022 foi profundo. Além das lesões físicas, o acidente causou consequências psicológicas que ainda exigem cuidados. A atleta cotou à jornalista que ao recuperar a consciência no hospital, mesmo sem compreender totalmente a gravidade da situação, fez um pacto silencioso consigo mesma: estaria nos Jogos seguintes, de 2026.

Segundo ela, o retorno ao alto rendimento exigiu adaptações. Com sequelas no pé esquerdo, precisou reformular o treinamento, mudando cargas, ajustando técnicas e encontrando novas formas de competir em igualdade. ” Eu ainda sinto dor, preciso adaptar muita coisa, mas consigo treinar e competir. Para mim, isso já é uma vitória”, comentou. A vaga para Milão-Cortina 2026 foi confirmada apenas no último dia do período classificatório. A disputa foi com sua amiga Jaqueline Mourão, atleta mais experiente da equipe e uma das principais referências do esporte brasileiro com oito participações em Jogos de Inverno e Verão.
Bruna contou que as chances eram mínimas e qualquer detalhe poderia ser decisivo. ” Desde o início eu sabia que seria uma disputa muito difícil! Foi uma espera angustiante, pois até o último dia, tudo podia mudar! Apesar da rivalidade, o respeito e admiração sempre prevaleceram. As duas se conhecem desde 2010, quando Jaqueline chegou a ser treinadora de Bruna no mountain bike. Com a vaga confirmada, a atleta redobrou os cuidados até a chegada à Itália. A reta final de treinamento foi feita dentro de casa, onde ela montou uma pequena academia. Nos primeiros dias em Milão, ela ficou hospedada com a família.
Carreira
Bruna é uma vencedora. Em 2011 quando Bruna após sentir fisgadas leves no peito, descobriu que sofria de uma cardiopatia grave – comunicação interatrial – que pode ocasionar até a morte. Ela era atleta de ciclismo mountain bike (MTB) e foi obrigada a se afastar do esporte, o que a colocou numa forte depressão. Em 2013, Bruna foi submetida a uma cirurgia para colocar uma prótese cardíaca.
De “coração novo”, ela retomou a carreira no ciclismo até descobrir o esqui cross country, um dos esportes das Olimpíadas de Inverno. Em 2015, ela decidiu trocar o mountain bike pela neve. Bruna decidiu dedicar-se ao esqui cross country, mas não conseguiu a classificação para PyeongChang 2018.
De 2014 a 2020, Bruna fez parte da Seleção Brasileira de Biathlon (ski com tiro esportivo), onde disputou provas como o Mundial Júnior, na Bielorrússia (2015), Open Europeu na Polônia (2017) e na Itália (2018) e provas da IBU Cup, organizadas pela União Internacional de Biathlon.
Em 2020 decidiu se dedicar apenas ao Esqui Cross Country, pois, segundo a atleta, nesse esporte vislumbrava chances reais de se classificar para as Olimpíadas de Pequim 2022, o que acabou se concretizando, mas infelizmente, aconteceu o acidente automobilístico, que tirou ela da competição. Agora, está nas Olimpíadas de Milão, na Itália.
*Com informações de Gabriel Gentile, do portal olimpiadatododia.

