Passeio interativo mostra a história geológica da Serra do Mar em São Sebastião

Pesquisadora do Instituto de Geociências da USP criou um passeio virtual que mostra de forma interativa vistas panorâmicas e modelos tridimensionais de áreas de São Sebastião. Tour permite entender a formação e constituição geológica da Serra do Mar – Foto Capa: Divulgação/GeoHereditas IGC-USP

 

Jornal da USP/ Por Cláudia Costa

 

Geodiversidade e Geopatrimônio da Serra do Mar: um passeio pelos geossítios de São Sebastião é o título do trabalho da geóloga Karina Ibanez. O objetivo, segundo ela, que atualmente cursa doutorado no Instituto de Geociências (IGc) da USP, é promover acesso à geologia da Serra do Mar (incluindo o Parque Estadual da Serra do Mar), por meio de visões panorâmicas e modelos tridimensionais, mostrando como a região se formou e evoluiu. O passeio virtual está disponibilizado no site do grupo de pesquisa GeoHereditas – Núcleo de Apoio à Pesquisa em Patrimônio Geológico e Geoturismo, criado em 2011, e referência no Brasil por seus trabalhos em geoconservação. Acesse neste link.

Esse passeio virtual foi desenvolvido como parte dos resultados da dissertação de mestrado de Karina, intitulada Caracterização de geossítios como subsídio à valorização do patrimônio geológico: migmatitos do Complexo Costeiro na Serra do Mar, São Sebastião (SP), sob a orientação da professora Maria da Glória Motta Garcia, no IGc. Segundo a pesquisadora, o projeto teve como objetivo a caracterização geológica de três geossítios localizados em costões rochosos das praias do sul de São Sebastião: Barra do Sahy, Camburizinho e Santiago.

Karina Ibanez, pesquisadora do Instituto de Geociências da USP – Foto: Reprodução / LinkedIn

“Esses costões são fundamentais para compreender a evolução geológica das rochas que sustentam a Serra do Mar na região, sendo um dos poucos locais onde essas rochas estão expostas, já que grande parte da serra é coberta pela densa Mata Atlântica. Eles registram uma antiga cadeia de montanhas formada há cerca de 600 milhões de anos, durante o chamado Ciclo Orogênico Brasiliano-Pan-Africano, um conjunto de eventos tectônicos que culminou na formação do supercontinente Gondwana Ocidental, quando as antigas massas continentais correspondentes às atuais América do Sul e África estavam unidas”, explica Karina.

A pesquisadora informa ainda que esses costões apresentam feições relacionadas à abertura do Oceano Atlântico, ocorrida há cerca de 130 milhões de anos, e hoje encontram-se integrados à planície costeira, sujeitos às ações erosivas, intempéricas, variações do nível do mar e formação de solos. “Ou seja, esses locais permitem visualizar, registrados em suas rochas e estruturas, uma longa e complexa história geológica. Apresentam, além de valor científico, valores ecossistêmicos, culturais, educativos e turísticos”, destaca. Ela enfatiza que, por esses motivos, precisam ser valorizados, “além de serem locais inseridos em contextos de áreas de proteção ambiental e com grande apelo turístico, como o Parque Estadual da Serra do Mar e APA Marinha do Litoral Norte”.

Foi para promover o conhecimento da região que, segundo ela, surgiu a ideia de desenvolver um produto interativo de divulgação que pudesse ser disponibilizado on-line, considerando a grande lacuna de informações sobre a geologia da Serra do Mar e os geossítios da região. “Produzimos imagens panorâmicas de todos os geossítios do município, além de modelos tridimensionais, mapas e conteúdos explicativos voltados à divulgação científica”, declara. As imagens panorâmicas e os modelos tridimensionais, como diz Karina, foram gerados a partir do processamento de imagens captadas por drone, utilizando softwares específicos.

Ao clicar nos pontos do passeio virtual o visitante tem acesso a informações – Foto: Reprodução/GeoHereditas IGc USP

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Para a pesquisadora, o principal diferencial do passeio é permitir visualizar como esses costões rochosos e geossítios se inserem na paisagem da Serra do Mar, de forma interativa e em alta resolução espacial. “Além disso, o conjunto de materiais explicativos sobre a geologia da região, disponível para download em PDF, é um recurso importante para democratizar o acesso a informações que geralmente permanecem restritas a publicações científicas”, conclui.

O passeio

A Serra do Mar é a cadeia montanhosa presente na maior parte do litoral sudeste e sul brasileiro, do Rio de Janeiro a Santa Catarina, orientada na direção paralela à costa, e formada por um conjunto de escarpas (despenhadeiros) com mais de 1.500 km de extensão. Já o Núcleo São Sebastião do Parque Estadual da Serra do Mar, criado em 1998, possui uma extensão de 26.268 hectares e abrange cerca de 70% do município de São Sebastião e uma pequena porção do município de Caraguatatuba. No final de 2010, com a ampliação do parque, importantes áreas foram incorporadas do Núcleo São Sebastião, expandindo a sua proteção para outros ecossistemas, como os costões rochosos, ambientes que servem para alimentação e abrigo de espécies marinhas.

O passeio on-line disponibiliza as paisagens de geossítios de São Sebastião, juntamente com informações sobre os processos geológicos que moldaram a área, e sobre os serviços ecossistêmicos que a geodiversidade local oferece, ou seja, materiais e processos que vêm da natureza e que são úteis para o ser humano. No total são 11 geossítios que contam a história geológica das rochas que formam a Serra do Mar da região. São locais com elevados valores científicos, turístico e educativo, como pontua a autora do trabalho. Cada geossítio, como ela explica, possui um nome técnico associado à feição geológica mais representativa do local.

Tour também apresenta mapas em modelo tridimensional – Foto: Reprodução / GeoHereditas IGc-USP

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Entre os geossítios está o da Trilha do Jatobá, que leva a uma cachoeira, com um poço de mesmo nome. Ao observar atentamente, é possível notar que a rocha exibe uma intrigante padronização listrada, conhecida como bandamento. Essa característica surge devido à segregação de diferentes minerais em “linhas” ou “camadas”, como está descrito no site. Há também o geossítio Costão da Barra do Sahy, um costão em forma de falésia, acessado por uma pequena trilha no canto direito da praia da Barra do Sahy. As regiões mais escuras da rocha assumem a forma de lentes deformadas e são constituídas por rochas mais resistentes aos processos de fusão.

Um dos mais extensos é o geossítio do Costão de Boiçucanga, com acesso pelo canto direito da praia de Boiçucanga. Constituído por um migmatto com minerais grossos, apresenta partes mais claras formadas por minerais como quartzo, intercaladas com partes mais escuras formadas por minerais como a biotita. Esse marcante costão rochoso, como informa a autora, possibilita compreender em detalhes as estruturas dessas rochas complexas que registram a história geológica da região na época do supercontinente Gondwana, há 600 milhões de anos.

No Costão de Juquehy, por exemplo, observa-se uma série de rochas misturadas que registram uma evolução em crosta profunda. As rochas mais claras correspondem à cristalização do magma e são repletas de minerais claros, como quartzo. As rochas mais escuras datadas de 593 milhões de anos são metamórficas, que se formam a partir de rochas basálticas, e a grande quantidade de blocos de rocha reflete a constante erosão marinha no costão. Já no geossítio Costão de Guaecá, há predominância de uma rocha mais clara, o granito – uma rocha ígnea do tipo plutônica, formada em profundidade na crosta de uma antiga câmara magmática. Essa rocha apresenta minerais com granulação grossa, principalmente quartzo e biotita.

Há ainda o Arquipélago de Alcatrazes, situado a aproximadamente 36 km do Porto de São Sebastião, e que constitui um refúgio de vida silvestre. Esse geossítio é formado pelo granito alcatrazes, datado de 570 milhões de anos. Seus principais minerais são quartzo, feldspato e biotita. Ele apresenta uma textura peculiar representada por cristais de feldspato muito grandes, chamados de megacristais, que atingem até 7 cm de comprimento; além disso, o granito apresenta rochas arredondadas mais escuras e com minerais mais finos. A região também apresenta uma geomorfologia característica, com seu ponto mais alto atingindo cerca de 316 metros de altura, no Pico da Boa Vista.

O grupo GeoHereditas, do qual a pesquisa faz parte, é vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) da USP e destina-se ao desenvolvimento de materiais que possam difundir conhecimentos geológicos e educação ambiental. Além do tour interativo pela Serra do Mar, também conta com outros passeios virtuais e materiais educativos que estão disponíveis no site do núcleo de pesquisa. Para saber mais sobre o GeoHereditas, visite o Instagram e o Facebook.

Para acessar o passeio virtual, clique aqui.

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