O mar que brilha no escuro: o espetáculo da bioluminescência no Litoral Norte

 

Imagine que você está fazendo um passeio pela orla da praia durante a noite e se depara com o mar todo iluminado. Esse fenômeno realmente existe e é chamado de bioluminescência. Essa curiosidade da fauna marinha vem ganhando cada vez mais destaque nas praias do litoral norte paulista.

 

Esse fenômeno  foi registrado em março na praia de Itamambuca, em Ubatuba, cujas fotos de Leonardo da Costa Dantas, encantou muita gente. Agora, em outubro, ocorreu na praia do Bonete, uma praia isolada no estremo sul de Ilhabela, com imagens registradas por Carolina Moraes.

 

bioluminescência em Itamambuca. foto de Leonardo da Costa Dantas/Reprodução Redes Sociais

 

O espetáculo é inesquecível e tem ocorrido com certa frequência no Litoral Norte Paulista. Quem presencia, jamais esquece. Imagine, você caminhando à noite pela orla e de repente o mar e as ondas ficam iluminadas, num tom azulado ou esverdeado…

 

O mar do Bonete, no extremo sul de Ilhabela, se iluminou em um espetáculo raro e encantador na última segunda-feira, dia 27. As fotos de Carolina Moraes publicadas no portal Ilhabela SP LT, encantaram os internautas.

 

Bioluminescência no Bonete. Foto: Carolina Moraes/Reprodução Redes Sociais

 

 

A internauta Maria Conceição Soares, após ver as fotos de Carolina Moraes, disse que: “Um flash parecido com Aurora boreal. Rosely Sanchez Vieira, comentou que “Deus é o criador destas maravilhas”. Para Antonieta Macedo, “Deus é perfeito”. Ana Maria Aquino, definiu as fotos e o fenômeno como “É muito lindo”.

 

 

INPO

 

O Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas(INPO) publicou recentemente um artigo sobre esse fenômeno que é conhecido como “bioluminescência”, um fenômeno natural que transforma organismos vivos em lanternas biológicas. Reproduzimos aqui o artigo pois explica muito bem o fenômeno.

 

 

A luminescência é, basicamente, a luz que alguns seres vivos conseguem produzir. Esse brilho nasce de uma reação química entre duas substâncias: a luciferina (a molécula que guarda a “energia da luz”) e a luciferase (a enzima que faz a reação acontecer).

 

 

A oceanógrafa Gleyci Moser, professora da UERJ e integrante da rede de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), afirmou no artigo do INPO, que o brilho do mar é mais que espetáculo: é um convite à conexão.

 

“Vi pela primeira vez quando era criança e está até hoje na minha memória. Foi uma das coisas que me levou à oceanografia e ao estudo do plâncton. A única forma de proteger um ecossistema é se sentir parte dele. Quando você vê uma onda azul quebrando no escuro, isso nunca mais sai da sua memória.”

 

O fenômeno está presente em quase todos os grandes grupos marinhos: plânctons, algas unicelulares, bactérias, lulas, camarões, peixes e até vermes das regiões abissais. Fora da água, é raro, restrito a alguns fungos e insetos, como vaga-lumes. Diferente da fluorescência ou fosforescência, a bioluminescência é produzida ativamente pelo metabolismo do organismo.

 

Luz como estratégia de sobrevivência

 

Nos oceanos, especialmente na zona mesopelágica (entre 200 e mil metros de profundidade), ela é ferramenta vital para sobrevivência. No breu absoluto, luz pode significar caça, defesa ou reprodução. Peixes-pescadores atraem presas com “anzóis” luminosos. Lulas e vermes ejetam nuvens brilhantes para despistar predadores. Alguns crustáceos piscam para chamar parceiros. Outros usam o brilho para se camuflar, confundindo-se com feixes de luz que penetram a água.

 

Nas regiões costeiras, os maiores espetáculos costumam vir de dinoflagelados, como Noctiluca scintillans. Agitados por ondas ou passos na areia, liberam uma luz azul intensa. O fenômeno chama a atenção em vários lugares do mundo, como em Porto Rico, virou atração turística noturna na famosa Baía Fosforescente.

 

Uma herança evolutiva persistente

 

A bioluminescência é uma herança antiga. Surgiu de forma independente ao menos 40 vezes na história da vida, em diferentes grupos e épocas. Uma hipótese sugere que, antes de servir para comunicação ou defesa, ela ajudou organismos primitivos a neutralizar o oxigênio, que no início da Terra era tóxico para muitas formas de vida.

 

Para o professor Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico da USP e pesquisador do INPO, trata-se de um mecanismo persistente na história evolutiva. ” Se todos os organismos bioluminescentes se extinguissem hoje, é provável que a reação surgisse de novo em poucos milhões de anos. A natureza insiste em recriar e manter esse processo, envolvendo sempre os mesmos compostos reativos. Pode ser que ele seja essencial à sobrevivência  de quem o produz, ou apenas um fruto teimoso da Árvore da Vida”.

 

Segundo Brandini, no escuro do oceano, a luz não é apenas beleza – é sobrevivência, linguagem e memória. E, para quem vê, difícil de esquecer.

 

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