Por Fernanda Carbonelli, advogada e diretora do Instituto Conservação Costeira (ICC)

O Brasil vive uma nova estação: a das tragédias. As chuvas já não seguem mais os padrões de décadas passadas. Elas são intensas, concentradas e letais. O relatório “Temporadas das Águas”, lançado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica em parceria com a Unifesp e a Fundação Grupo Boticário, mostra um retrato preocupante: em apenas três décadas, os desastres climáticos relacionados a chuvas cresceram mais de 700%.
Entre 1991 e 2023, o país registrou 26.767 desastres, com mais de 91 milhões de pessoas afetadas, 4.247 mortes e 8,7 milhões de desabrigados ou desalojados. O prejuízo econômico ultrapassa os R$ 146 bilhões – valor que se dobra ao considerar as perdas provocadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. A Região Sudeste, onde atuamos, concentrou 31% de todos os desastres. São Sebastião, por exemplo, viveu uma tragédia histórica em fevereiro de 2023, com mais de mil pontos de deslizamentos e 65 mortes, numa combinação de frente fria, solo saturado e desinformação.
A resposta da sociedade civil
Diante da omissão histórica do poder público, quem se levanta são as comunidades, organizações e redes de solidariedade. O Instituto Conservação Costeira (ICC), que dirijo desde sua fundação há mais de 12 anos, é um desses agentes de transformação. Com atuação no Litoral Norte de São Paulo, o ICC foi responsável pela resposta emergencial à tragédia de 2023 e, posteriormente, pela liderança em um dos maiores projetos de restauração ambiental da Mata Atlântica.

Coordenamos o Projeto Restaura Litoral, um plano robusto de reflorestamento e educação ambiental que usa drones, inteligência artificial e o conhecimento das comunidades tradicionais. O projeto visa plantar milhões de árvores, restaurar áreas de risco, formar estudantes em educação climática e empoderar lideranças locais. Parte dos recursos veio de um Termo de Compromisso com a Concessionária Tamoios, negociado com base em inovação jurídica socioambiental.
Enquanto o estudo técnico defende Soluções baseadas na Natureza (SbN) como o caminho para resiliência – como cidades-esponja, biovaletas, áreas de alagamento planejado e proteção de matas ciliares –, o ICC já pratica isso na ponta: em comunidades vulneráveis, onde a chuva leva tudo, menos a esperança.
Justiça climática é a nossa pauta
O estudo destaca que 75% da população brasileira acredita que suas cidades não estão preparadas para os eventos extremos, e 64% sentem medo diante da previsão de chuvas fortes. Não é só percepção: é realidade. Por isso, nossa atuação é transversal. Além de reflorestar, formamos conselhos, pressionamos por políticas públicas, denunciamos omissões estruturais e garantimos respaldo jurídico a famílias que perderam suas casas.

Hoje, o ICC integra o Conselho Estadual de Mudanças Climáticas, levando a voz da sociedade civil para dentro da formulação de políticas públicas. Acreditamos que o enfrentamento da crise climática precisa unir ciência, direito, educação e ação comunitária.
A hora é agora
O relatório fecha com um chamado claro: precisamos agir. Não é mais possível tratar chuvas extremas como eventos isolados. Elas são a face visível de uma crise global, que exige ações locais e imediatas. É nisso que acreditamos, é isso que fazemos. E você, vai esperar a próxima chuva levar tudo embora?

