Projeto CoastSnap chega as praias do Litoral Norte Paulista. Fotos de celulares ajudam na conservação ambiental. Confira:

Projeto busca incentivar a participação da comunidade na preservação do litoral, aproximando moradores e turistas das ações de conservação ambiental. Foto capa: Totens instalado na Praia do Peró (Cabo Frio – RJ).

 

A praia de Itamambuca, Reserva Nacional de Surf , em Ubatuba, passou a integrar uma iniciativa internacional que utiliza fotografias feitas por moradores e visitantes para acompanhar as mudanças no litoral. A praia de Itamambuca agora faz parte da rede CoastSnap, projeto de ciência cidadã presente em mais de 100 países.

Totens em Itamambuca

O projeto utiliza fotos de celulares para monitorar a erosão, a faixa de areia e as mudanças na costa. Essas imagens permitem acompanhar a posição da linha de costa, a largura da faixa de areia, mudanças na vegetação, processos de erosão e até impactos ambientais. Quanto mais pessoas participam, maior é a quantidade de dados e melhor o monitoramento das praias.

 

A CoastSnap  é uma rede mundial de monitoramento de praias que usa a ciência cidadã, contando com estações de apoio no litoral para coletar fotos tiradas por moradores e turistas. O projeto ajuda cientistas a entenderem como as praias mudam com o tempo.  O projeto chegou agora, em julho, à praia de Itamambuca.

 

A proposta permite que qualquer pessoa contribua com o monitoramento da praia de forma simples. Para participar, basta utilizar uma das quatro estações instaladas em Itamambuca, posicionar o celular no suporte, registrar a imagem sempre do mesmo ângulo e enviá-la por meio do QR Code disponível na estrutura.

 

Cartaz orienta como produzir as fotos e enviar

As fotografias são analisadas por pesquisadores e transformadas em dados científicos que ajudam a acompanhar a evolução da linha da costa, medir a largura da faixa de areia, identificar processos de erosão, monitorar alterações na vegetação e avaliar impactos ambientais ao longo do tempo.

 

 

A implantação do projeto em Itamambuca é resultado de uma parceria entre o Instituto de Cultura Oceânica (ICOA), responsável pela coordenação da Reserva Nacional de Surf Itamambuca, e o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), por meio do Laboratório de Dinâmica Costeira. A iniciativa também conta com a colaboração da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que coordena a rede CoastSnap Brasil.

 

 

Além da produção de informações científicas, o projeto busca incentivar a participação da comunidade na preservação do litoral, aproximando moradores e turistas das ações de conservação ambiental.

 

 

Ao todo, quatro estações foram instaladas na praia de Itamambuca: duas no canto direito, uma no canto esquerdo e outra na Rua 1. A expectativa é que a participação do público amplie o banco de dados sobre a dinâmica costeira de Itamambuca e fortaleça as pesquisas voltadas à conservação do litoral brasileiro.

 

Projeto CoastSnap

 

O projeto CoastSnap, uma iniciativa global de ciência cidadã, tem ajudado a preencher uma lacuna da gestão ambiental brasileira: o monitoramento comunitário sistemático da linha de costa. A partir de totens instalados em pontos estratégicos das praias, qualquer pessoa pode tirar fotos com o celular e enviá-las via WhatsApp para pesquisadores. Até o ano passado, eram cerca de 35 estações de monitoramento distribuídas por 30 praias em nove estados: Amapá (AP), Bahia (BA), Ceará (CE), Maranhão (MA), Pernambuco (PE), Rio Grande do Sul (RS), Rio de Janeiro (RJ), Santa Catarina (SC) e Sergipe (SE).

 

O processamento das imagens segue metodologia padronizada em todo o País: as fotos são retificadas com auxílio de tecnologias que aprimoram a precisão dos dados — como o GPS RTK, um GPS de maior precisão, e Matlab, um software que realiza cálculos numéricos com vetores e desenvolvimento de matrizes — como se fossem imagens aéreas, compensadas pelas variações de maré e usadas para traçar a linha da costa e medir a largura da faixa de areia. “Essa uniformidade torna o CoastSnap um avanço importante em termos de metodologia de monitoramento de praias”, afirma o coordenador nacional do projeto CoastSnap Brasil, Pedro de Souza Pereira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

 

Diante dos altos valores dos equipamentos e de campanhas de campo, o baixo custo da solução é um grande atrativo, explica Pedro comparando o valor da iniciativa com outra de tecnologia similar.

 

“No passado, tivemos um projeto aprovado pelo CNPq que visava instalar estações de monitoramento da costa por vídeo, no valor total de R$ 50 mil. Com o CoastSnap a gente tem a mesma proposta, mas conseguimos fazer uma estação com suporte para celular com apenas R$ 600. “Em um país como o nosso, com mais de 8,5 mil quilômetros de costa, onde as praias são objeto do cotidiano do brasileiro, conseguimos de uma forma barata fazer o monitoramento de várias praias do litoral”, diz o pesquisador.

 

A meta é ter ao menos uma estação em cada estado costeiro do País. Grupos de São Paulo e Paraná já demonstraram interesse em integrar a rede, e novas propostas estão sendo preparadas para captar recursos após o fim do atual ciclo de financiamento, em 2025. O projeto envolve 11 instituições de pesquisa e recebe financiamento do CNPq por meio de um edital para ciência cidadã. Participam do projeto duas pesquisadoras da Rede do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo): Flavia Lins de Barros, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Mônica Ferreira Costa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

 

 

Imagens captadas têm usos diversos

 

As imagens geradas pela população têm aplicações diretas e específicas em cada local, indo muito além da simples identificação da linha de costa. Em Santa Catarina são usadas para detectar correntes de retorno, que representam risco aos banhistas. No Ceará, ajudam a documentar a retração de falésias. Em Pernambuco e no próprio Ceará, registram a chegada de algas e o acúmulo de lixo. No Amapá, uma estação foi instalada em uma praia fluvial da Amazônia. Em outras localidades, as imagens têm sido combinadas com ferramentas de inteligência artificial para contagem de pessoas, contribuindo para estudos de capacidade de carga turística e uso público das praias.

 

Em Pernambuco, a estação do CoastSnap está instalada na praia do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá. A professora Mônica Ferreira Costa, da UFPE e membro da rede de pesquisadores do Inpo, utiliza o CoastSnap para realizar a análise da costa com sua equipe. As fotos enviadas pelos visitantes ajudam a monitorar a erosão, a frequência de banhistas e a balneabilidade da praia, complementada pelos dados fornecidos pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). A ideia agora é dar um passo além: integrar essas informações ao Observatório Costeiro e Marinho de Pernambuco, que vai reunir dados sobre qualidade da água, uso das praias, fauna, flora e capacidade de carga turística para orientar estratégias de conservação do litoral.

 

“É difícil reverter um processo de poluição. Não existe compensação ambiental. O ambiente nunca volta ao ponto de partida.  Precisamos atuar na prevenção, avançar nos tratamentos e nas ações antes dos resíduos chegarem no oceano. Não deixar para trocar a fechadura depois da porta arrombada”, afirma a professora.

 

Desafios de engajamento e vandalismo ainda limitam alcance do projeto

 

Apesar da eficácia e baixo custo, o CoastSnap enfrenta desafios importantes. Um dos principais é o engajamento do público. Mesmo em praias movimentadas, como a do Santinho (SC), que recebe cerca de 200 mil pessoas por ano, o número de fotos recebidas pode ser inferior a 60 por ano. Muitos banhistas utilizam os totens para tirar selfies e ignoram as instruções, mesmo diante de placas informativas.

 

“Um dos grandes desafios é a manutenção, porque a gente depende de parceiros locais para cuidar das placas e também para incentivar os frequentadores a usarem. Nem sempre as pessoas entendem a proposta, então algumas tiram fotos e não as enviam, outras acham que é só uma plaquinha de informação turística”, afirma Flavia.

 

Outro problema recorrente é o vandalismo. Em Santa Catarina, três estações já foram removidas após danos repetidos. No Rio de Janeiro, diversas praias também tiveram suas estruturas comprometidas. Isso dificulta a continuidade do monitoramento e gera custos adicionais para substituição dos equipamentos. Ainda assim, os pesquisadores seguem buscando formas de tornar o projeto mais resiliente, seja com totens mais robustos, seja com campanhas locais de conscientização.

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