Neste domingo, dia 28, é comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+.
Por Salim Burihan
A novela A Força do Querer exibida originalmente pela TV Globo no ano de 2017, trama de Glória Perez, que abordou a ideologia de gênero, causou muita polêmica na época, mas também, ajudou muita gente a tomar coragem para assumir a sua “verdadeira” opção de vida.
A transformação de Ivana (Carol Duarte) em Ivan, na trama, fez muita gente a assumir o seu “eu” verdadeiro. A aceitação de Ivan pelos pais, amigos e pelos telespectadores fez muitas pessoas “trans” a tomarem uma decisão, entre elas, o caraguatatubense Nívio, na época com 43 anos, casado e com dois filhos.
Uma pessoa trans é alguém cuja identidade de gênero (quem ela sabe que é) é diferente do sexo que lhe foi designado ao nascer. Por exemplo, uma pessoa que nasceu com sexo masculino mas se identifica como mulher, é uma mulher trans. A palavra abrange homens trans, mulheres trans e pessoas não-binárias.
O impacto da novela, sensibilizou e estimulou Nívio, webdesigner e marceneiro, de família muito tradicional na cidade, casado e pai de dois filhos, a se transformar em Alice.
Não foi e nem está sendo nada fácil. Foi surpreendente para a família, para os amigos e conhecidos. Ninguém, nem mesmo os familiares e amigos mais próximos, imaginavam que Nívio poderia ser uma trans ou teria vocação para tal. Eu mesmo, que conhecia Nívio, fiquei tão desconfiado, que achei que tudo não passava de uma brincadeira. Não era…
Contei a transformação de Nívio em Alice em meu blog, na época. Um história surpreendente. Alice contou que, como “Nívio” desde criança se sentia “menina”, apesar de ser menino.
“Na minha inocência, pedia para a fada madrinha me transformar em menina. Minha família era muito tradicional, não tinha como assumir. Vivia entre os meninos, mais em casa, sozinho, tinha meu mundo feminino”, contou.
Na fase adulta, Nívio namorou, casou, teve filhos, mais vivia preso a uma realidade que não era a sua. “Sempre procurei me comportar, no andar, no falar, no jeito de cruzar as pernas…Nunca foi nada fácil. Sofria muito com tudo isso”, afirmou.
E, assim, Nívio foi levando a vida familiar e profissional. Segundo ele, nunca, ninguém, desconfiou de nada. Nívio era forte, musculoso, marceneiro e muito calado. Vivia para o trabalho e para a família. De repente, decidiu romper o silêncio de muitos anos, derrubar as barreiras e tabus e começar uma nova vida.
Família
O primeiro passo que tomou, em 2017, segundo ele, foi conversar com a mulher, a Beta, com quem estava casado há 23 anos e tinha dois filhos. Nívio nunca havia conversado sobre esse assunto com a mulher e, garante, que não foi nada fácil.
“Foi difícil prá caramba. Ela entendeu, mas sofreu e muito. Eu vivia muito deprimido, não conseguia trabalhar e pensei até em suicídio, eu tinha que contar para ela. Foi um choque para ela, mas ela entendeu. Eu acabei tirando um peso enorme de minhas costas. Não era uma situação fácil para nenhum de nós”, contou.
A conversa com os dois filhos ocorreu em dezembro de 2017. Seus filhos na época(2017), tinham 19 anos, a jovem e o menino, oito anos. Nívio também decidiu levar o assunto ao conhecimento dos quatro irmãos e dos amigos mais próximos.
“Quando imaginava que tudo ficaria mais fácil, tudo complicou-se. Aí, entrei em pânico. Fiquei confuso. Passeis maus momentos. Eu tinha que assumir. Procurei uma psicóloga, ela me ajudou muito”, comentou na entrevista concedida em 2017. Hoje, garante que mantém um ótimo relacionamento com os filhos e a mulher.
A transformação ou transição definitiva de Nívio em Alice, aconteceu em 2017. Foi quando Nívio se transformou literalmente em Alice. Roupas femininas, maquilagem, cabelos mais compridos, unhas pintadas e um andar feminino. O homem forte, sério e reservado se transformou em uma mulher solta, alegre, extrovertida, doce e feliz.
Na ocasião, foi um choque para muita gente que conhecia o Nívio. Ela, a Alice, no entanto, procurou amenizar o drama. Ela mesmo colocou o assunto em seu face e criou um blog para discutir a questão do transgênero.
A transição não afetou sua vida profissional: continua sendo uma ótima webdesigner e uma excelente marceneira. Como marceneira, produz excelentes trabalhos e participa de exposições.
Frequenta bares, restaurantes e as praias. Segundo ela, nunca teria sofrido nenhuma ofensa ou preconceito. “Percebia apenas alguns comentários”, contou. Alice participa de uma entidade LGBT+ e procura ajudar pessoas trans que necessitam de ajuda e apoio na cidade.
(Fotos cedidas pela Alice).
