João Rural: o homem que ouviu a terra

 

Uma vida dedicada a preservar o que a modernidade insiste em esquecer: a alma caipira do Vale do Paraíba.

 

Texto por Ana Clara Abrão/Revista Proseá

 

A preservação da história e da cultura do Vale do Paraíba não seria a mesma sem a dedicação e a câmera atenta de João Evangelista de Faria, também conhecido como João Rural. Nascido em Paraibuna, interior do Vale do Paraíba paulista, ele dedicou mais de quatro décadas da vida a registrar, valorizar e divulgar a cultura caipira, eternizando em seus registros o cotidiano de um povo simples, mas rico em suas raízes e simbolismos.

Primeiro, nasce João 

João nasceu em 1951 na zona rural de Paraibuna. Era o segundo de dez filhos de Malvina Borges de Faria e Francisco Cândido de Faria e desde cedo, a vida na roça foi sua maior escola: vendia hortaliças, queijos e doces produzidos pela família em uma barraca à beira da estrada, e participava dos afazeres do campo. Aos 12 anos, um problema de saúde o afastou do roçado e o aproximou da cozinha. Enquanto os irmãos trabalhavam na lavoura, João ajudava a mãe e as cozinheiras da família.  Aprendeu muito sobre pratos típicos do dia a dia do povo raiz, e foi ali, no calor do fogão a lenha, que nasceu sua paixão pela culinária caipira. A cozinha da mãe foi sua primeira sala de aula e o fogão a lenha, seu primeiro laboratório de cultura.

Depois, nasce o Rural

No município de Paraibuna, João deu seus primeiros passos no mundo da comunicação, quando ainda jovem trabalhou no cinema local, adquiriu uma câmera fotográfica e começou a se apaixonar pelo clique. Por um tempo foi entregador em uma banca de jornais, sendo essa a experiência que despertou nele o gosto pela leitura. Na segunda metade dos anos 1970, mudou-se para São Paulo, mas nunca perdeu sua principal essência. Fez cursos de fotografia, turismo e gastronomia no SENAC, frequentou o MASP e participou de concursos de fotografia, onde chegou a ser premiado. Depois de tanto estudo, concluiu o curso superior de Turismo. Nesse período longe de casa que ele olhou para Paraibuna com novos olhos, e assim iniciou suas pesquisas sobre os tropeiros e as práticas rurais da região. De volta ao Vale, em 1978, tornou-se repórter e fotógrafo, assumiu a direção de Educação e Cultura da Prefeitura de Paraibuna, criou a Feira Agropecuária do Alto do Paraíba (FAPAP) e produziu shows de grupos regionais. Em 1980, lançou o jornal Folha da Serra, nos anos seguintes, mudou-se para São José dos Campos, onde assumiu a editoria do Suplemento Rural do jornal Vale Paraibano, e foi nesse contexto que ganhou o apelido que nunca mais o abandonou: João Rural.

Raízes que permanecem 

Em 2010, junto com sua família, João colocou toda essa riqueza sob um mesmo teto: nasceu o Instituto Chão Caipira “Malvina Borges de Faria”, em Paraibuna. A missão era clara, salvaguardar e difundir o acervo construído ao longo de mais de 40 anos de pesquisa. O nome em homenagem à mãe não foi por acaso: dona Malvina, com seus saberes, foi a primeira grande mestra de João na cultura caipira. O Instituto tornou-se o ponto de encontro entre passado e presente: um espaço onde estudantes, pesquisadores, professores e qualquer pessoa curiosa sobre as raízes do interior paulista podem encontrar documentos, fotografias, publicações e registros audiovisuais de uma cultura que João fez questão de não deixar desaparecer. Dessa forma, os arquivos de uma vida inteira estariam disponibilizados não só para as próximas gerações, mas para registrar que a memória vive mesmo quando o tempo t en t a apagar. Foto de João Evangelista de Faria, conhecido como João Rural.

O Rio Paraíba do Sul

Nenhum tema acompanhou João Rural de forma tão constante quanto o Rio Paraíba do Sul. O grande rio que dá nome ao Vale foi o fio condutor de décadas de trabalho — e não por acaso: o Paraíba do Sul é um dos rios mais importantes do Sudeste brasileiro, responsável pelo abastecimento de milhões de pessoas, mas que sofreu intensa degradação ao longo do século XX por industrialização, desmatamento e poluição.

A partir de 2006, com patrocínio da Petrobras, João lançou o Projeto Nascentes do Paraíba do Sul, uma iniciativa voltada à valorização e preservação das nascentes da bacia hidrográfica, que resultou em quatro edições do Guia Nascentes do Paraíba do Sul. A última edição traz informações turísticas, culturais, gastronômicas e ambientais sobre 37 municípios paulistas, todos com nascentes que correm para o Paraíba do Sul. Mas o projeto foi muito além de um guia: gerou também um livro, um documentário e uma exposição fotográfica chamados “O Templo das Águas e das Tradições”, a cartilha infantil “Salvando as Águas”, o vídeo “Zóio Bão” (voltado para crianças), o documentário “Danças e Ritos das Nascentes” e o livro “Caipiras e Sabores das Nascentes”.

 

Instituto Chão Caipira

 

 

Em uma casa em Paraibuna, interior de São Paulo, caixas, fitas e fotografias guardam mais de quatro décadas de história. Ali está armazenado o acervo de João Rural, pesquisador e fundador do Instituto Chão Caipira Malvina Borges de Faria — uma organização dedicada a preservar a memória e a cultura caipira no Vale do 14 de 70 até 2015, no final da Paraíba. No dia 26 de abril, José Vicente Faria, irmão de João Rural, e Rogério Faria, filho de José Vicente, abriram as portas desse espaço para contar a história por trás desse trabalho. Segundo José Vicente, o instituto é, na prática, um grande repositório de pesquisas que João Rural acumulou ao longo da vida, desde o início da década vida dele. A formalização da ONG aconteceu em 2010, com o apoio de familiares e amigos. Foi também nesse período que João Rural criou o canal TV Chão Caipira, aproveitando a expansão da internet para publicar vídeos de festas e eventos que havia registrado ao longo dos anos.

A mãe, que dá nome ao Instituto 

O nome completo da organização carrega uma homenagem: Malvina Borges de Faria, mãe de João Rural e José Vicente. Enquanto os irmãos trabalhavam na roça com o pai, João permanecia em casa, próximo à mãe, por conta de um problema de saúde. “Ele ajudava bastante a minha mãe, na parte de gastronomia. Ela o ensinava e ele a ajudava a preparar a comida, onde pegou o gosto pela culinária.” A escolha do nome não foi planejada desde o início — surgiu de uma circunstância dolorosa. Quando chegou o momento de registrar a ONG — planejado para o dia 1º de abril de 2010 —, a família foi surpreendida por uma perda: Malvina faleceu no dia 30 de março. O velório aconteceu no dia 31 e, reunidos naquele momento de luto, foi o próprio João quem sugeriu batizar a instituição com o nome da mãe, como uma consideração e gratidão aos seus ensinamentos.

Por que João dedicou a vida inteira a esse trabalho? 

O desejo de permanência como motor principal: Para José Vicente, a resposta está na intensidade com que o irmão se relacionava com a cultura caipira. “Ele tinha uma obsessão pela cultura caipira. Tudo que ele produziu estava ligado a ela — os vídeos, livros e jornais que ele fez eram sempre sobre os costumes do povo caipira.” Rogério aponta “Acho que a motivação do meu tio a respeito da criação do instituto foi deixar esse legado.” “Ele queria de algum modo expandir e não deixar guardado para ser esquecido.”

Das gavetas para o mundo digital 

A digitalização do acervo foi um processo que aconteceu em etapas. Logo após a morte de João Rural, em 2015, a família submeteu um projeto ao PROAC — Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo — e obteve verba para digitalizar parte do material. Anos mais tarde, em 2023, um novo projeto, desta vez pelo programa Aldir Blanc, permitiu digitalizar o restante das f itas e fotografias. 70 mil fotos digitalizadas e 43 mil imagens para livre acesso e consulta no site do instituto. Apesar de todo o esforço de digitalização, o material físico ainda enfrenta um desafio concreto: falta estrutura adequada para sua conservação. Rogério é direto ao avaliar a situação: “Esses materiais não estão sendo adequadamente cuidados, em questão de clima, ambientação e estrutura. Temos pretensões de doar esse material para alguma instituição adequada que tenha profissionais, estrutura e verba para poder preservar de modo adequado”. Por ora, 16 PROSEÁ o cuidado é feito com o que se tem: dedicação familiar e a consciência de que aquele material representa algo maior do que a história de um único homem.

E o caipira? Como fica? 

Para José Vicente, a cultura caipira passou muito tempo às margens do reconhecimento social. “Ela esteve escondida durante um bom tempo. Principalmente na época que João trabalhou com isso, ela era ridicularizada”, lembra. Segundo ele, o próprio João Rural sofreu esse preconceito na escola, onde o termo “caipira” era usado de forma pejorativa. Foi justamente contra esse estigma que João escolheu trabalhar. “Ele fazia questão de destacar Fotos do acervo , por Lavínia Veneziani. o caipira, enobrecer o caipira, principalmente nos trabalhos que ele fez sobre a gastronomia”, diz José Vicente. Passadas décadas desde que João Rural iniciou seu trabalho, uma pergunta permanece: por que o preconceito em relação ao modo de falar e viver caipira ainda existe? Rogério aponta que, com o avanço tecnológico e o maior acesso à informação, muito do conhecimento acumulado por gerações foi se perdendo. Além disso, ele também observa que o consumo dessa cultura, raramente vem acompanhado um interesse de genuíno. “Quem consome, consome pela memória, mas não por valorizar e querer estudar e trazer para essa realidade.”

Apagamento cultural 

As consequências do apagamento cultural são, segundo Rogério, duplas. A primeira é o enfraquecimento do vínculo das pessoas com o lugar onde vivem. A segunda, é mais concreta: o desaparecimento de saberes práticos e simbólicos. “A gente acaba sendo uma sociedade cada vez mais homogeneizada, e que sofre forte influência, especialmente estadunidense, por exemplo, entrando num processo de descaracterização da nossa própria cultura. A gente perde o vínculo emocional com o lugar, onde as pessoas estão mais fechadas em casa com o streaming do que na rua.” diz Rogério.

Instituto x Futuro

O Instituto Chão Caipira tem hoje uma série de iniciativas em andamento, mas esbarra em um obstáculo comum a muitas organizações culturais sem fins lucrativos: a falta de recursos próprios. José Vicente reconhece que há muito trabalho pela frente. Fotos do acervo , por Lavínia Veneziani. “Ainda temos bastante coisa para fazer por aqui, como todas as pastas de documentos que estão armazenadas aqui, mas é uma coisa que ainda não conseguimos trabalhar.” O sonho, segundo ele, seria criar uma estrutura mais adequada para receber pesquisadores e interessados. “O interessante seria um museu, uma instituição.” Há também a ideia de uma feira gastronômica em homenagem a João Rural, uma biografia do fundador — cujas entrevistas com pessoas que o conheceram já foram realizadas por um jornalista, mas aguardam financiamento para edição e publicação — e projetos na área ambiental, voltados à preservação do Rio Paraíba do Sul.

 

  •  A edição da Revista Proseá, segundo José Vicente, irmão de João Rural, foi feita em caráter experimental por alunos da UNIP(Universidade  Paulista) de São José dos Campos: Diretora de Arte: Camila Oliveira e Vitória Gonçalves. Designer Gráfico: Ana Luísa Cardoso e Camila Oliveira. Redatoras: Ana Clara Abrão, Lavínia Veneziani e Thaína Melissa. Revisora: Ana Clara Abrão e Lavínia Veneziani. Produtora Gráfica: Ana Luísa Cardoso, Thaína Melissa e Vitória Gonçalves. José Vicente informou que a visita ao Instituto Chão Caipira, em Paraibuna, é feita através de agendamento pelo telefone 12-99701-9602.   Os vídeos podem ser acessados na TV Chão Caipira e mais informações sobre o instituto no site chaocaipira.org.br

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