Após mais de 100 anos de luta, segundo os moradores, energia elétrica chega finalmente à comunidade caiçara do Peres, em Ubatuba. Na foto da capa, o caiçara Irineu mostra a lâmpada acesa em sua casa a primeira a receber energia elétrica no Peres.
Por Salim Burihan
A quarta-feira, dia 23, foi um dia muito histórico e muito especial para a Comunidade do Peres, na região sul de Ubatuba. Após mais de 100 anos de luta, a energia elétrica finalmente chegou à comunidade de caiçaras. A casa do casal Thais Galbiati e Irineu Constantino de Oliveira foi a primeira a receber a energia elétrica. As demais casas do Peres serão ligadas na rede elétrica pela Elektro de acordo com a listagem encaminhada à prefeitura para agilizar as instalações.

“Hoje é um dia histórico. Eu e o Irineu recebemos a luz elétrica em nossa casa. Fomos os primeiros moradores a receber a energia elétrica. A energia será instalada nas demais casas aos poucos pela companhia. Foi uma grande surpresa, não esperava por isso, um dia chuvoso, cinza…Chorei por duas horas e meia de emoção, pela chegada da energia, relembrei a luta de mais de 100 anos dos caiçaras do Peres pela energia elétrica…A luz é muito importante para a nossa vida, pra os nosso os filhos e para a nossa comunidade..”, comentou Thais.

Ela fez questão de agradecer aos funcionários Jacson e Tatiana, da Elektro que fizeram a instalação e ligaram a energia elétrica casa dela. Segundo Thaís, a própria comunidade fez a numeração de suas casas para receber a instalação da energia elétrica. Cerca de 60 famílias serão beneficiadas pela energia elétrica.

A comunidade do Peres decidiu homenagear os moradores que participaram da luta pela implantação da energia, mas que faleceram, antes da luz chegar no Peres. Todos eles terão seus nomes nas trilhas que ligam o Bonete ao Peres: Caminho “Maria Egídia de Oliveira”, Caminho “Anardina Benedita de Jesus” e Caminho “Constantino Jerônimo de Oliveira”.
Relembre
A Praia do Peres fica a 26 quilômetros do centro da cidade e a 800 metros do canto direito da Praia da Lagoinha. O acesso ao Peres é feito de barco ou por uma trilha, que é mantida pelos moradores e as vezes, pela prefeitura. A falta de energia elétrica vinha prejudicado a todos, moradores e veranistas, mas tudo indica que agora, em breve, muito breve, a energia vai chegar.

Foi uma luta e tanto. Muitos moradores do Peres morreram sem ver a energia chegar na comunidade. A energia sempre esteve muito das casas, bem pertinho, a 800 metros do Peres ficava o último poste que abastecia a praia da Lagoinha. Bastava apenas prolongar a fiação e instalar os postes pra que o Peres tivesse energia, mas isso não acontecia. Foi preciso muita luta e sofrimento dos caiçaras e o apoio do promotor Wagner Giron de la Torre, da Defensoria Pública de Taubaté e da procuradora da República, Walquiria Imamura Picoli, em Caraguatatuba, para que fosse iniciado o projeto para que a energia pudesse chegar ao Peres.
Mais de 60 famílias serão atendidas pela energia elétrica. Com a chegada da energia elétrica, os veranistas não dependerão mais de geradores, para iluminar e manter seus aparelhos elétricos. Os caiçaras, a maioria, não precisará mais comprar gelo para manter seus alimentos e pescados e poderão dispensar de vez o uso dos lampiões e das velas para iluminar suas casas. A expectativa da chegada da energia é muito grande no Peres.

Muitos caçaras participaram da luta pela energia, mas acabaram morrendo antes de ver a luz chegar, entre eles, seu Joãozinho, falecido em 2021, aos 75 anos e seu Constantino, falecido em 2013, aos 87 anos. Agora a expectativa é grande. Dona Maria Zacharias de Oliveira, de 86 anos, viúva do seu Constantino, não vê a hora da energia chegar ao Peres.

Nascida e criada no Peres, dona Maria manteve sua propriedade e criou oito filhos no local, sem luz, sem geladeira, sem eletrodomésticos, lavando roupa na mão e usando velas e lampiões para iluminar a casa. Seu marido queria vender a terra a preço de banana, diante de tantas dificuldades, mas dona Maria, não deixou. Ela nunca perdeu as esperanças de ver a luz chegar e as coisas melhorarem. Dona Maria conta os dias para ver a luz chegar no Peres.
Obras

Thais Galbiati e seu marido, o caiçara Irineu de Oliveira, entraram de “corpo e alma” na luta pela implantação na energia no Peres iniciada há mais de 100 anos. Thais é o elo entre a comunidade, a concessionária e a prefeitura de Ubatuba. Tem se dedicado diariamente para agilizar a chegada da energia no local.
“É um absurdo uma comunidade viver sem energia elétrica, sendo que sempre existiu energia há menos de 1 quilômetro de distância da nossa comunidade. Bastava apenas prolongar a fiação e instalar os postes. A energia elétrica é fundamental para o desenvolvimento social das famílias do Peres. E, só conseguimos isso, através de muita luta e persistência”, comenta Thaís.
O marido de Thais, o caiçara Irineu de Oliveira, que vive da pesca e do cultivo de mexilhão para sustentar a família, conta que com a chegada da energia os moradores não precisarão mais comprar gelo todos os dias para manter o alimento da família e os pescado capturados. Segundo Oliveira, os caiçaras gastam em média de R$ 600,00 a R$ 1.200,00 mensalmente apenas com gelo. Ou seja, um custo muito elevado para as famílias que vivem da pesca. “Quem vive na cidade, mesmo, com maior consumo de energia, não gasta mais de R$ 300,00,mensalmente. Vamos ter uma boa economia com a chegada da energia”, argumentou.
Os serviços para implantação da energia elétrica no Peres está sendo feito pela empresa Multienergia. São cerca de 20 pessoas, coordenadas pelo engenheiro Antônio. Eles mantém um bom relacionamento com a comunidade. Um dos pescadores do Peres, o caiçara Amarildo dos Santos, foi contratado para ajudar nos serviços. A empresa preparou a trilha, fez as tubulações, colocou os postes, instalou as caixas de energia, a fiação e os transformadores.

Os caiçaras, em contribuição, fizeram um churrasquinho para os trabalhadores. “São pessoas muito simples, esse pessoal da Multienergia, empreiteira contratada pela Elektro, para fazer os serviços no Peres. Vieram de outras cidades e se dedicam o tempo todo em agilizar a chegada da energia em nossa comunidade. Devemos muito à eles”, conta Thais. Segundo ela, a Elektro não divulgou o valor do investimento que está sendo feito no Peres.
Trilha

A comunidade usa uma trilha ou barcos para chegar nos bairros da Lagoinha, Maranduba e Sertão da Quina. As crianças que estudam nos bairros da Maranduba ou Sertão da Quina usam a trilha e ônibus circular para irem às aulas diariamente.
Segundo Thais, o sinal de internet é bom na praia do Peres. Por enquanto, os moradores usam energia solar ou geradores para carregarem seus aparelhos. Quem usa energia solar nos dias de chuvas fica sem poder usar equipamentos como geladeira e máquina de lavar porque não existe energia suficiente.
Em caso de urgência médica, os moradores usam barcos ou a trilha para se locomoverem até o pronto-socorro da Maranduba ou o hospital no centro de Ubatuba. Segundo Thaís, cada família cuida da coleta, armazenagem e destinação do lixo doméstico que é levado pela trilha ou de barco até os containers que atendem a Salga(Sociedade Amigos da Lagoinha) e é recolhido pela prefeitura.

