A polícia civil de Caraguatatuba está investigando a morte de 15 gatos por envenenamento no bairro do Perequê-Mirim. Este tipo de envenenamento de animais tem ocorrido também em outros bairros da cidade.
O 1º Distrito Policial que cobre a região sul da cidade ouviu na tarde desta quinta(11) um possível suspeito. Um pedaço de peixe, possivelmente envenenado com chumbinho, recolhido no quintal de uma residência, foi encaminhado para análise no Instituto Adolfo Lutz, na capital.
O pedaço de peixe, supostamente envenenado com chumbinho, foi encaminhado para a delegacia de polícia por Cigiane Oliveira, moradora do bairro, que cuida de nove gatos e perdeu três deles envenenados.
O envenenamento de animais tem ocorrido em outros bairros da cidade. No mês passado, dois gatos e um cachorro morreram envenenados com aldicarb, mais conhecido como “chumbinho” no bairro Jardim Primavera.
Uma das vítimas foi a gatinha “Bebeca”, de apenas sete meses. Uma gatinha linda e carinhosa, que era amada pelos donos e adorada pela maioria dos vizinhos. Uma morte que entristeceu a todos.
Os donos de “Bebeca” e os vizinhos ficaram inconformados. A família de “Bebeca” possui outros três gatos( Udi, Serelepe e Liga) e uma cadelinha. Os animais, como os demais do bairro, estão “proibidos” de deixar a casa e vigiados constantemente no quintal.
Bebeca

A gatinha foi encontrada no quintal da casa, às 6 horas da manhã, acuada em um canto, vomitando e defecando. A família levou a gatinha imediatamente para o médico veterinário. “Bebeca” estava sofrendo muito e a família não sabia o que estaria ocorrendo com ela. Uma hora depois foi anunciado o óbito da gatinha, para a tristeza da família.
O veterinário informou aos donos que a causa da morte da gatinha “Bebeca” tinha sido o envenenamento provocado pela ingestão de chumbinho. Segundo a família, os outros três gatos da casa não tiveram problemas, ou seja, não ingeriram chumbinho. A maioria dos vizinhos foram informados do ocorrido e todos passaram a adotaram medidas para protegerem seus animais de estimação.
Entre os animais, os gatos estão entre as vítimas fatais do “chumbinho”. A maioria deles saem para passear durante a noite e acabam por ingerir iscas contendo chumbinho. Como o efeito do veneno é rápido e cruel, muitos são encontrados mortos pela manhã. Foi o que deve ter ocorrido com “Bebeca”.
É crime

Segundo especialistas, o efeito do “chumbinho” em animais é bem rápido, aparecendo sintomas entre 5 a 10 minutos após a ingestão. Os sinais irão depender do tamanho do animal e da quantidade ingerida. O consumo de grandes quantidades do veneno pode causar morte súbita.
Fiquem atentos aos seus animais. Os sinais de intoxicação podem ser vários: salivação (o animal começa a babar), vômitos, diarreia, convulsão, inquietação ou prostração, incoordenação, tremores, falta de ar (dispneia), hemorragia oral ou nasal, fraqueza, pupilas contraídas e provoca graves lesões nos pulmões, fígado e rins do animal.
Segundo especialistas, os animais intoxicados devem ser tratados com lavagem estomacal (até 2h após ingestão), sulfato de atropina para conter a maioria dos sinais causados pelo aldicarb, soroterapia para eliminar mais rápido o veneno, anti-hemorrágico, anticonvulsivantes e carvão ativado para evitar a absorção do tóxico pelo organismo, entre outras medidas.
Muita gente ainda usa o chumbinho contra os ratos. É crime comercializar o produto, e quem compra também está cometendo uma contravenção. Quem coloca, propositadamente, iscas com “chumbinho” (ou qualquer outro veneno) para matar o cão ou gato do vizinho não sabe que pode ser preso, pois infringe a Lei Ambiental.
A nova lei, sancionada em 29 de setembro de 2020, a Lei 14.064/2020, apelidada de “Lei Sanção” prevê pena de reclusão de dois a cinco anos para quem comete abuso e maus tratos a animais, além de multa e proibição da guarda. Segundo dados do IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil tem 28,8 milhões de domicílios com pelo menos um cachorro e mais de 11 milhões com algum gato.
Estudo
Um grupo de veterinários da Faculdade de Medicina Veterinária, da Universidade Estadual do Ceará, apresentou em 2017 um estudo sobre a intoxicação provocada por Aldicarb em um felino de 3 anos de idade. É assustador.
O aldicarb, um carbamato de alta toxicidade, que é vendido de forma clandestina e usado ilegalmente como raticida doméstico. Esta substância inibe a enzima acetilcolinesterase presente nas sinapses colinérgicas, acarretando estimulação excessiva dos receptores nicotínicos e muscarínicos, por conta disso, o atendimento e diagnóstico precoce do animal é fundamental para aumentar suas chances de sobrevida.
Um felino, fêmea, sem raça definida (SRD), três anos de idade, castrada e semidomiciliada apresentou subitamente um quadro de êmese, hiperexcitabilidade, agressividade, sialorreia, dispneia e posteriormente defecou-se e urinou-se. Segundo o tutor esses sinais clínicos ocorreram após o animal ter tido acesso às áreas comuns do condomínio. Imediatamente o felino foi levado à emergência veterinária.
O animal foi sedado com diazepam (2mg/kg por via IM) para conter e estabilizar o animal, logo em seguida recebeu sulfato de atropina (0,5mg/kg por via IM) e ranitidina (1mg/kg) por via SC. O animal foi submetido a oxigenoterapia por máscara, além da, realização de um acesso venoso, fluidoterapia colocada a soro com Lactato de Ringer a uma taxa de 30 ml / hora e administração de furosemida (2mg/kg por via IV).
Neste mesmo dia, o animal apresentou uma melhora, mostrando-se estável e retornou para casa com o acesso venoso, três horas após ter recebido alta, este teve uma piora e retornou para emergência onde permaneceu em internamento sendo submetido a fluidoterapia na dose de manutenção até vir a óbito por uma parada respiratória dois dias após o ocorrido. Posteriormente, o corpo do felino foi encaminhado para um laboratório de patologia para realização da necropsia.
No exame interno, foi observado congestão e edema encefálico e áreas de hemorragia. No coração, havia dilatação átrio-ventricular direita com áreas de hemorragia do miocárdio. Enquanto, o pulmão se apresentava com edema agudo, congestão e hemorragia pulmonar, além da presença de atelectasia e enfisema em focos. No fígado, existia uma acentuada dilatação e congestão dos sinusóides hepáticos, ocorrendo áreas de necrose e degeneração hidrópica moderada dos hepatócitos e colestase intra e extrahepática.
Ademais, havia múltiplas áreas de infarto renal com extensa produção fibrótica. Nefrite subaguda intersticial e adjacente às áreas de infarto. Intensa degeneração cortical e cortico-medular renal com áreas múltiplas de hemorragia. Havia gastroenterite catarral hemorrágica com grande quantidade de material necro-hemorrágico na luz onde se observam partículas pequenas, arredondadas e de cor prata, compatíveis com chumbinho. Moderada congestão e edema da mucosa gastrointestinal. Focos de necrose e hemorragia.
Foi observado congestão plurivisceral e inexistência de sinais de traumatismo no corpo do felino. O Aldicarb exerce sua toxicidade por meio da inibição da atividade da acetilcolinesterase (carbamilação) e, consequentemente, da estimulação excessiva dos receptores nicotínicos e muscarínicos, causando edema, congestão e degeneração hidrópica, principalmente, em pulmões e fígado. A morte ocorreu por parada respiratória em virtude de hipertonicidade os músculos respiratórios. Assim, a necropsia sugeriu que a causa mortis foi por insuficiência respiratória por suspeita de intoxicação exógena por aldicarb. Fonte: Simpavet(Sindicato dos Médicos Veterinários do Estado de São Paulo).
