Como a regionalização do turismo pode mover a economia paulista

A ideia não é selecionar apenas 10 ou 12 cidades, mas integrar os 284 municípios em conjuntos que possam ser apresentados ao viajante como experiências turísticas completas

 

Por /Jornal da USP

 

 

A Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP), comandada por Ana Biselli Aidar, pretende mudar a forma de divulgar os destinos paulistas. Atualmente, 284 municípios são classificados como estâncias turísticas ou municípios de interesse turístico. A nova proposta é reunir esses destinos em 10 a 12 roteiros macroregionais, cada um com identidade própria, em vez de promovê-los individualmente.

 

A definição deverá considerar aspectos como a proximidade geográfica, as vocações turísticas de cada território, a complementaridade entre os atrativos, a infraestrutura disponível, a conectividade entre os destinos e o potencial de comercialização dos produtos turísticos. Um dos exemplos apresentados é a região da Serra da Mantiqueira, que reuniria São Bento do Sapucaí, Campos do Jordão e Santo Antônio do Pinhal. Outro, chamado de “fé, serra e mar”, conectaria a cidade de Aparecida com o litoral e áreas de montanha.

A regionalização do turismo já existe no Brasil há anos. Iniciada em 2004, com o Programa de Regionalização do Turismo (PRT), o objetivo é promover o desenvolvimento regional. A ideia, agora, não é selecionar apenas 10 ou 12 cidades, mas integrar os 284 municípios em conjuntos que possam ser apresentados ao viajante como experiências turísticas completas. A estratégia foi anunciada pela secretária durante um encontro na Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

 

Segundo relato publicado pela ACSP sobre a reunião, a avaliação da secretária é que apresentar centenas de municípios individualmente pode dificultar a escolha do turista. Com menos roteiros, organizados por identidade e proximidade geográfica, o visitante poderia combinar diferentes cidades em uma única viagem, permanecer mais tempo na região e consumir mais serviços locais.

 

A proposta, entretanto, não deve ser interpretada como uma substituição automática das regiões turísticas existentes. A compatibilização entre os diferentes recortes territoriais deverá considerar as estruturas de governança, as vocações locais e as oportunidades de integração entre os destinos, conforme a própria assessoria de imprensa da Setur-SP.

 

Complementaridade e descentralização

 

Edegar Luís Tomazzoni – Foto: Arquivo pessoal

Edegar Luís Tomazzoni, professor da Escola de Artes Ciências e Humanidades da USP, aponta que o novo projeto pode trazer uma complementaridade entre os municípios, compensando limitações de um com a oferta de serviços de outro. “Se uma cidade menor não tem uma estrutura hoteleira suficiente, ela vai se apoiar nas que têm. A vantagem de articular, de reunir, é que tem a complementação”, afirma.

 

A nova estratégia, de acordo com Ana Biselli, é aumentar o tempo de permanência dos turistas nos locais, propondo vários destinos na mesma viagem, em vez de permanecer em apenas um município. Edegar argumenta que a integração também é essencial para atrair turistas de fora do Estado. “Assegurar receita de fora de São Paulo, visto que a grande maioria dos circulantes já é do Estado. Vamos gerar aquilo que se define como o dinheiro novo na economia.”

 

Além disso, a organização de roteiros pode oferecer maior visibilidade para o interior do Estado, descentralizando os destinos mais populares, como a própria capital paulista. Para o professor, “o fato de se apresentar a proposta já contribui, porque, à medida que o projeto, vai ocupando espaço na mídia, é divulgado, chama a atenção das pessoas.” Posteriormente, os roteiros podem ser comercializados por operadoras e agências, facilitando a escolha dos turistas por destinos “menos populares”.

 

Desafios e riscos de integração

 

Apesar das vantagens apresentadas, existem desafios que devem ser considerados para não comprometer os objetivos do projeto. “Um dos desafios é atender aos interesses e expectativas desses municípios, verificar se todos eles vão se considerar inseridos na proposta.” Visto que as cidades têm atrativos e interesses diferentes, um roteiro regional precisaria contemplar essa diversidade, evitando que elas sintam que suas particularidades foram deixadas de lado. É preciso considerar as condições de acesso e infraestrutura dos destinos menos procurados. Sem as facilidades de deslocamento para adentrar em um destino e uma estrutura adequada, fica muito difícil”, comenta. Se também não houver uma coordenação entre as iniciativas existentes e a nova proposta, surgirão problemas de gestão, alinhamento entre os municípios e na tomada de decisões.

 

Participação local e distribuição de recursos

 

“Os planos municipais de turismo devem ser elaborados por meio de oficinas de planejamento participativo, ou seja, com participação da comunidade, que é a prioridade”, pontua. Todos integrantes dos conselhos municipais de turismo devem se envolver na elaboração do projeto, definir e viabilizar a realização dessas ações. “É uma questão de monitorar e regular os fluxos, principalmente na alta temporada.”

 

Pensando nisso, o Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos, órgão que repassa recursos a estâncias e municípios de interesse turístico, passará a considerar sobretudo as decisões regionais na execução dos projetos apresentados e à capacidade das prefeituras de executá-los na decisão sobre a distribuição dos recursos.

 

Ademais, o Centro de Inteligência da Economia do Turismo, que tem papel na produção e na análise de informações para subsidiar planejamentos, deverá utilizar dados de telefonia móvel para medir o deslocamento dos visitantes. O objetivo é acompanhar não apenas o crescimento do turismo, mas também como os fluxos se distribuem pelo Estado e quais efeitos produzem nas comunidades locais. Entre as dimensões relevantes para o acompanhamento da estratégia estão o tempo médio de permanência dos visitantes, o gasto turístico, a distribuição dos fluxos entre os destinos, a movimentação econômica e a participação dos negócios locais na cadeia produtiva do turismo, segundo as informações fornecidas pela Secretária.

 

*Sob supervisão dos jornalistas Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira

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