Foto capa: Gardelin com a esposa Lucy e os filhos Lúcia, Selma, Telma e João.
“Eles não nos ensinaram apenas fórmulas ou regras gramaticais; ensinaram-nos a ter voz e a acreditar no nosso próprio potencial.”
Por Salim Burihan
Neste dia 15 de outubro, quando se comemora o Dia do Professor, o Notícias das Praias presta suas homenagens a todos os professores, relembrando a história e a vida de um deles que atuou no Litoral Norte Paulista: o professor João Baptista Gardelin, ou melhor, o “Mestre Gardelin”, que marcou a vida estudantil e pessoal de muita gente na região.
As memórias que guardamos dos nossos professores são, na verdade, os alicerces de quem nos tornamos. Escrever sobre os professores marcantes é resgatar histórias de afeto, inspiração e, acima de tudo, transformação humana. Pessoalmente, jamais esquecerei de professores como Gardelin, o professor Antônio de Freitas Avelar, a professora, Maria Moraes de Oliveira, minha primeira professora no Grupo Escolar Adaly Coelho Passos, entre tantos outros. Sou muito grato a todos eles.
Gardelin, não era caiçara de nascimento, mas tornou-se caiçara de coração, assim como, toda a sua família. Um Mestre que deixou saudades e foi fundamental na formação de muitos caiçaras de Caraguatatuba, Ilhabela, Ubatuba e São Sebastião.

Conheci o professor Gardelin no Colégio Thomaz Ribeiro de Lima onde ele dava aulas de matemática. Dê início, me chamou a atenção, o fato dele não ter um dos braços- Gardelin perdeu o braço esquerdo durante um acidente quando trabalhava em uma serralheria. Me surpreendia o fato dele com um braço só, conseguir andar de bicicleta, segurando um guarda-chuvas e, às vezes, levando um dos filhos na garupa.
Eu também ficava impressionado, quando seu aluno, com a maneira e a delicadeza com que ele segurava com apenas uma das mãos o livro, a caderneta de chamadas e o apagador. E, ficava admirado, quando ele fazia uma circunferência na lousa. O círculo, feito com o giz, ficava perfeito, como se ele tivesse utilizado uma fôrma para desenhá-lo, pela tamanha perfeição.

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Gardelin era um mestre respeitado por matemáticos de todo o país. Na época, década de 70, o Osvald de Souza, matemático brasileiro dos mais conhecidos, consultava Gardelin antes de lançar um livro ou quando tinha alguma questão matemática de difícil solução.
Lembro da sua correria. Dava aulas em Caragutatuba e em São Sebastião. Ia de ônibus até a cidade vizinha. E lembro muito bem do seu interesse em ajudar cada um de seus alunos. Não me esqueço até hoje dos dias de férias que perdi por causa do reforço que ele sugeria.
“ Você passou de ano, mas vou te deixar de segunda época, para que você estude um pouco mais de álgebra durante as férias”, justificava Gardelin. Eu ficava desolado, pois perdia algumas horas de futebol na praia. Minha mãe, preocupada, contratava um professor particular- geralmente o Zequinha ou o Dito, filhos do Vicente Orlando, para me dar aulas de reforço escolar.
Gardelin era palmeirense roxo. E, sempre soltava um “porca la miséria”, talvez para relembrar sua origem italiana. Era um dos mais respeitados. Recordo uma vez que a minha turma aprontou feio com um dos professores e lá foi chamado o Gardelin para acalmar a turminha. Quando ele chegava e falava, todos respeitavam.
Lembro também que Gardelin sempre apostava na Loteria Esportiva. Ele dizia que o salário do professor era reduzido e que tentava a sorte na loteca. Fazia bolão com os outros professores, entre eles, o professor Avelar, que dava aulas de Ciências. A maioria de seus ex-alunos quando ia estudar em outras cidades, quando falava que era de Caraguatatuba, ouvia muitos elogios ao professor Gardelin.
Gardelin nunca esquecia de seus ex-alunos. Quando encontrava com um deles, fazia questão de cumprimentá-lo e saber como ele estava se saindo nos estudos universitários. Se algum deles tivesse dúvidas, Gardelin, prontamente se colocava à disposição para ajudar. Gardelin aposentou-se em 1987 e faleceu em 1990, aos 71 anos.
Gardelin

João Baptista Gardelin nasceu no dia 19 de outubro de 1919, em São Paulo. Cursou o primário em Resende(RJ). Fez ginásio e curso de Filosofia(Escola Politécnica de São Paulo) e bacharelado em Matemática(PUC). Deu aulas em colégios e cursinhos da capital. Em 1952, aprovado no Estado, deu aulas em Araras(SP). Em abril de 1953 chegou à Caraguatatuba, para dar aulas no Thomaz Ribeiro de Lima.
De 57 a 70 também deu aulas em São Sebastião, no então Colégio Estadual de São Sebastião. Em 1983 foi homenageado pela Câmara de Caraguá com o título de Cidadão Caraguatatubense, pelo reconhecimento de seu trabalho. Aposentou-se no Thomaz Ribeiro de Lima em 1987. Faleceu em 12 de janeiro de 1990.
Foi casado com a Dona Lucy Miranda Gardelin e pai de Maria Lúcia, Selma, Telma e João. A família permaneceu em Caraguatatuba. Lúcia como professora de educação física. Telma como psicóloga e Selma como empresária no ramo de confecção. A família Gardelin cresceu, vieram os netos e bisnetos.

