Caiçaras de Ubatuba terão energia elétrica após mais de 50 anos de luta

 

Por Salim Burihan

 

Finalmente, após mais de 50 anos de luta, a energia elétrica vai chegar à Comunidade do Peres, na região sul de Ubatuba. Consta que a energia será ligada no Peres, entre o final de agosto e o início de setembro, pela Elektro, concessionária responsável pela distribuição de energia em Ubatuba.

 

A Praia do Peres fica a 26 quilômetros do centro da cidade e a 800 metros do canto direito da Praia da Lagoinha. O acesso ao Peres é feito de barco ou por uma trilha, que é mantida pelos moradores e as vezes, pela prefeitura. A falta de energia elétrica tem prejudicado a todos, moradores e veranistas, mas tudo indica que agora, em breve, muito breve, a energia vai chegar.

 

Serviço sendo finalizado

 

Foi uma luta e tanto. Muitos moradores do Peres morreram sem ver a energia chegar na comunidade.  A energia sempre esteve muito das casas, bem pertinho, a 800 metros do Peres ficava o último poste que abastecia a praia da Lagoinha. Bastava apenas prolongar a fiação e instalar os postes pra que o Peres tivesse energia, mas isso não acontecia. Foi preciso muita luta e sofrimento dos caiçaras e o apoio do promotor Wagner Giron de la Torre, da Defensoria Pública de Taubaté e da procuradora da República, Walquiria Imamura Picoli, em Caraguatatuba, para que fosse iniciado o projeto para que a energia pudesse chegar ao Peres.

 

Mais de 60 famílias serão atendidas pela energia elétrica. Com a chegada da energia elétrica, os veranistas não dependerão mais de geradores, para iluminar e manter seus aparelhos elétricos. Os caiçaras, a maioria, não precisará mais comprar gelo para manter seus alimentos e pescados e poderão dispensar de vez o uso dos lampiões e das velas para iluminar suas casas. A expectativa da chegada da energia é muito grande no Peres.

 

Seu Joãozinho, de 75 anos, faleceu em 2021, sem ver a luz chegar no Peres

 

Muitos caçaras participaram da luta pela energia, mas acabaram morrendo antes de ver a luz chegar, entre eles, seu Joãozinho, falecido em 2021, aos 75 anos e seu Constantino, falecido em 2013, aos 87 anos. Agora a expectativa é grande. Dona Maria Zacharias de Oliveira, de 86 anos, viúva do seu Constantino, não vê a hora da energia chegar ao Peres.

 

 

Dona Maria com Thais e Irineu

 

Nascida e criada no Peres, dona Maria manteve sua propriedade e criou oito filhos no local, sem luz, sem geladeira, sem eletrodomésticos, lavando roupa na mão e usando velas e lampiões para iluminar a casa. Seu marido queria vender a terra a preço de banana, diante de tantas dificuldades, mas dona Maria, não deixou. Ela nunca perdeu as esperanças de ver a luz chegar e as coisas melhorarem. Dona Maria conta os dias para ver a luz chegar no Peres.

 

Obras

 

Trabalhadores da Multienergia transportando transformadores

 

Thais Galbiati e seu marido, o caiçara Irineu de Oliveira, entraram de “corpo e alma” na luta pela implantação na energia no Peres iniciada há mais de 50 anos. Thais é o elo entre a comunidade, a concessionária e a prefeitura de Ubatuba. Tem se dedicado diariamente para agilizar a chegada da energia no local.

 

“É um absurdo uma comunidade viver sem energia elétrica, sendo que sempre existiu energia há menos de 1 quilômetro de distância da nossa comunidade. Bastava apenas prolongar a fiação e instalar os postes. A energia elétrica é fundamental para o desenvolvimento social das famílias do Peres. E, só conseguimos isso, através de muita luta e persistência”, comenta Thaís.

 

O marido de Thais, o caiçara Irineu de Oliveira, que vive da pesca e do cultivo de mexilhão para sustentar a família, conta que com a chegada da energia os moradores não precisarão mais comprar gelo todos os dias para manter o alimento da família e os pescado capturados. Segundo Oliveira, os caiçaras gastam em média de R$ 600,00 a R$ 1.200,00 mensalmente apenas com gelo.  Ou seja, um custo muito elevado para as famílias que vivem da pesca.  “Quem vive na cidade, mesmo,  com maior consumo de energia, não gasta  mais de R$ 300,00,mensalmente. Vamos ter uma boa economia com a chegada da energia”, argumentou.

 

Os serviços para implantação da energia elétrica no Peres está sendo feito pela empresa Multienergia. São cerca de 20 pessoas, coordenadas pelo engenheiro Antônio. Eles mantém um bom relacionamento com a comunidade. Um dos pescadores do Peres, o caiçara Amarildo dos Santos, foi contratado para ajudar nos serviços. A empresa preparou a trilha, fez as tubulações, colocou os postes, instalou as caixas de energia, a fiação e os transformadores.

 

Churrasquinho para trabalhadores da Mutienergia

 

Os caiçaras, em contribuição, fizeram um churrasquinho para os trabalhadores. “São pessoas muito simples, esse pessoal da Multienergia, empreiteira contratada pela Elektro, para fazer os serviços no Peres.  Vieram de outras cidades e se dedicam o tempo todo em agilizar a chegada da energia em nossa comunidade. Devemos muito à eles”, conta Thais. Segundo ela, a Elektro não divulgou o valor do investimento que está sendo feito no Peres.

 

Trilha

 

Trilha do Peres

 

A comunidade usa uma trilha ou barcos para chegar nos bairros da Lagoinha, Maranduba e Sertão da Quina. As crianças que estudam nos bairros da Maranduba ou Sertão da Quina usam a trilha e ônibus circular para irem às aulas diariamente.

 

Segundo Thais, o sinal de internet é bom na praia do Peres. Por enquanto, os moradores usam energia solar ou geradores para carregarem seus aparelhos. Quem usa energia solar nos dias de chuvas fica sem poder usar equipamentos como geladeira e máquina de lavar porque não existe energia suficiente.

 

Em caso de urgência médica, os moradores usam barcos ou a trilha para se locomoverem até o pronto-socorro da Maranduba ou o hospital no centro de Ubatuba.  Segundo Thaís, cada família cuida da coleta, armazenagem e destinação do lixo doméstico que é levado pela trilha ou de barco até os containers que atendem a Salga(Sociedade Amigos da Lagoinha) e é recolhido pela prefeitura.

 

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