Jornalistas indígenas lançam manual para qualificar a imprensa. Confira:

Objetivo é transformar a forma como povos originários são retratados

 

Jornalistas indígenas lançaram nesta segunda-feira (10), na Câmara dos Deputados, em Brasília, o primeiro manual de Jornalismo Indígena do Brasil que chega com a proposta de transformar a forma como os povos originários são retratados.

 

O primeiro manual brasileiro de redação do jornalismo indígena, “Poranga Marandúa” (na língua Nhe’engatu, significa “boas notícias”), ensina como os jornalistas devem cobrir histórias sobre os povos originários de forma ética, responsável e sem preconceitos. O manual foi produzido pela Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), com linguagem acessível para que todo tipo de público possa ter acesso. A publicação valoriza os indígenas jornalistas e tenta mudar a forma pela qual os povos originários são vistos pela mídia e  pela sociedade.

 

Mesmo com mais de 300 povos indígenas vivendo em território brasileiro, esse é o primeiro guia de redação feito no Brasil com foco na pauta indígena. Segundo Juliana Lourenço, indígena jornalista das etnias Kariri e Otxukayana, conselheira da Abrinjor e co-autora do guia, o manual vai além de uma simples correção de termos. A proposta é mostrar que o jornalismo indígena existe e resiste. Para ela, o jornalismo funciona como um mediador social e a partir do momento em que ele se corrige, a sociedade também aprende junto.

 

Juliana afirma que a ignorância sobre a pauta indígena é causada pela desinformação sobre esse tópico, que vem desde o ensino básico.  E destaca a necessidade de  mudança. “A mídia contribui muito para essa visão errada da pauta indígena, a gente (jornalista) está alí como um termômetro social. Quando a gente passa a quebrar esses estigmas, a sociedade passa a enxergar essas pessoas como pessoas.”

 

Atualmente, a Abrinjor tem mais de 70 membros, com a maior parte deles de povos da Amazônia. Juliana também explicou o porquê do nome Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas – eles escolhem ser chamados como indígenas jornalistas, pois sua ancestralidade e cultura vem antes de sua escolha profissional. Para eles, trata-se de um posicionamento político e uma forma de valorizar sua cultura e saberes.

 

A jornalista também reforça como a falta de indígenas trabalhando nos veículos tradicionais ou falando sobre suas vivências na mídia contribuem para a permanência de preconceitos. E disse que, quando as fontes ouvidas para falar sobre povos originários são sempre antropólogos e estudiosos de fora do território indígena, é como se o indígena não soubesse falar por si e seus saberes fossem inferiores.

 

“Muitas das nossas lideranças comunitárias e espirituais não têm diploma acadêmico, mas têm o saber. Aí entra o especialista não indígena falando pelo indígena só porque tem um diploma? Acaba que o indígena fica invisibilizado, sempre precisando ser tutelado por alguém”, destaca.

 

Poranga Marandúa não significa apenas boas notícias – no caso do manual, também significa resistência dos povos originários e esperança que eles finalmente tenham suas histórias ouvidas e contadas de forma responsável. Mostra esperança de uma sociedade que respeite a pauta indígena e de um jornalismo que se comprometa a aprender junto com os povos originários.

Escrito de forma coletiva por jornalistas indígenas e estudantes de Jornalismo de diferentes povos e biomas brasileiros, o manual reúne orientações para uma abordagem mais ética, qualificada e livre de estereótipos sobre os povos originários.

 

No Viva Maria desta segunda-feira (10), Mara Régia conversa com o jornalista Luan Tremembé, coordenador da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), sobre o lançamento de Poranga Marandúa – Manual de Jornalismo Indígena.

Confira e ouça o programa Viva Maria:

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *