O Mundo da Bola desta quarta-feira, dia 17, fala sobre a presença de Garrincha numa partida amistosa em Caraguatatuba, no litoral norte paulista, em 1976. Garrincha já havia parado de jogar profissionalmente em 1972 e aos 42 anos participava de jogos amistosos amadores pelo Brasil afora para poder sobreviver financeiramente. Sua presença, nos amistosos, lotava os estádios.
Por Salim Burihan
No ano de 1976, o Estádio do E.C. XV de Novembro, em Caraguatatuba(SP), recebeu um grande público para assistir uma partida entre o másters do “Milionários F.C e o E.C. XV de Novembro. A presença do grande número de torcedores tinha um motivo especial: estaria em campo um dos maiores nomes da história do futebol mundial, o Garrincha.
A arquibancada do estádio estava lotada. Assisti ao jogo grudado no alambrado. Ver Garrincha, o “Anjo das Pernas Tortas”, ao vivo, era um sonho de criança. Sempre achei o Garrincha, um dos melhores jogadores do futebol brasileiro, as vezes, cheguei a considerá-lo até melhor que o Pelé.
O ídolo estava ali, a poucos metros de mim, que permanecia grudado no alambrado. Aquelas pernas tortas, olhando bem de perto, me impressionavam. Como conseguia jogar bola e dar dribles sensacionais deixando os adversários no chão em partidas no Maracanã e no mundo afora, inclusive, conquistando dois mundiais para o Brasil?
Garrincha mantinha uma humildade impressionante para um craque que era conhecido no mundo inteiro e, mantinha a fala baixa e mansa, na conversa com os torcedores antes e após a partida. O ídolo estava ali, na minha frente, em carne e osso, mas o futebol já não era o mesmo. Nem podia ser, Garrincha havia encerrado a carreira profissional em setembro de 1972, atuado pelo Olaria num jogo contra a Caldense em Poços de Caldas(MG). Garrincha estava com 38 anos e há dois não jogava, quando o Olaria decidiu contratá-lo. Vivia e dependia financeiramente das partidas amistosas disputadas pelo Milionários.

Garrincha e Honório, na partida amistosa em Caraguatatuba
Confesso que fiquei triste em vê-lo em campo. O craque que eu tanto admirava, aos 42 anos, já apresentava problemas de saúde e pouco se movimentava em campo. Quando recebia a bola, os torcedores vibravam, mas não tinha mais velocidade e nem preparo físico para fugir da forte marcação do Honório, lateral esquerdo quinzista.
Garrincha participava da partida por causa da grana. O craque precisou continuar jogando partidas amadoras e amistosos após o fim de sua carreira profissional oficial devido à grave ruína financeira que enfrentava na época. Sua dependência do álcool, a ingenuidade ao assinar contratos e a falta de amparo institucional após pendurar as chuteiras o deixaram em extrema vulnerabilidade.
O Milionários tinha outros jogadores bastante conhecidos como Tobias, Cesar, Ditão e Canhoteiro, mas a grande atração era mesmo o Garrincha, que pela primeira vez, e exibia em Caraguatatuba. O XV venceu por 3×1, o gol do Milionários foi de autoria de Garrincha, cobrando pênalti que o goleiro Nerli Amaral, do XV, não conseguiu evitar.
Garrincha

Junto com Pelé, Garrincha é o maior astro do futebol brasileiro de todos os tempos. Sagrado um gênio nos campos, sua trajetória pessoal se fez de altos e baixos até sua morte melancólica, em 1983.
Manoel Francisco dos Santos nasceu no dia 28 de outubro, em Pau Grande, distrito de Magé, no Rio de Janeiro. Crescido numa família humilde, com 15 irmãos, ganhou o apelido de Garrincha de uma irmã, em referência ao pássaro homônimo encontrado na reunião.
Mané Garrincha começou a jogar com 14 anos, como amador, no Esporte Clube Pau Grande. O talento precoce o levou a um teste e à contratação no Botafogo. No primeiro treino, Mané já driblou Nilton Santos, então um jogador renomado.
Garrincha jogou 95% de suas partidas pelo Fogão, entre 1953 e 1965. Também vestiu a camisa da Seleção Brasileira 60 vezes, atuando nas Copas de 1958, na Suécia; de 1962, no Chile; e de 1966, na Inglaterra, sendo campeão mundial em seus dois primeiros torneios. Com ele em campo, a Seleção Canarinho perdeu apenas um jogo.
O Anjo de Pernas Tortas

Garrincha no Olaria, no final da carreira profissional/Foto: Reprodução/EPTV
Mané se notabilizou pelos dribles fascinantes, apesar do fato de possuir as pernas tortas. É considerado o maior ponta-direita da história do futebol brasileiro. Chamado de O Anjo de Pernas Tortas, teve atuação decisiva na conquista das Copas de 58 e 62. A ele se credita a hoje famosa expressão “combinar com os russos”.
No mundial de 58, antes do jogo contra a extinta União Soviética, em que o Brasil venceu o time adversário por 2 X 0, teria ocorrido um diálogo sui generis entre Garrincha e o técnico Vicente Feola. Conta-se que Vicente disse ao atleta para pegar a bola, driblar o primeiro beque, driblar o segundo, ir até a linha de fundo e cruzar forte para trás para Vavá marcar. Garrincha, então, respondeu: “Tudo bem, mas o senhor já combinou com os russos?”.
Garrincha ainda atuou em times como o Corinthians. No final, seu corpo já sofria com os excessos praticados fora dos campos. Seu último gol aconteceu no dia 23 de março de 1972, em uma partida do Olaria, pelo qual jogava, contra o Comercial, no estádio Palma Travassos, em Ribeirão Preto (SP). Pouco depois, sua carreira profissional chegou ao fim.
Mané Garrincha morreu no dia 20 de janeiro de 1983, na cidade do Rio, vítima de cirrose hepática, após uma longa batalha contra o alcoolismo. No seu túmulo, está escrito: “Aqui jaz aquele que foi a Alegria do Povo – Mané Garrincha”. Em 2010, torcedores do Botafogo fizeram uma vaquinha no valor de R$ 56 mil para a construção de uma estátua em homenagem ao jogador, criada pelo artista plástico Edgar Duvivier. A obra fica em frente ao Estádio Olímpico Nilton Santos, do Botafogo. Em Brasília, seu nome está no Estádio Nacional Mané Garrincha.
- Com informções da Fundação Cultural Palmares
