A construção de quiosques, calçadões e área de estacionamento na areia das praias e, inclusive, a limpeza mecânica, provocam efeitos negativos no ecossistema costeiro, segundo os pesquisadores. Foto Capa: Martim de Sá, em Caraguatatuba.
Por Agência FAPESP
Um estudo realizado em 90 pontos de 30 praias de Litoral Norte Paulista- Ubatuba, Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião, foi usado num simpósio internacional realizado o mês passado no Uruguai para comprovar o impacto da urbanização e das mudanças climáticas sobre a biodiversidade, a pesca e o turismo em áreas costeiras.
O estudo feito pelo biólogo Guilherme Corte, professor na Texas AM University at Galveston (EUA), sob a coordenação de Omar Defeo, da Universidade da República(UdelaR) no Uruguai, foi apresentado no Simpósio Fapesp Uruguai, realizado o em Montevidéu. A “compressão costeira” – o uso urbano, de turismo e urbanização, que reduz o espaço nas praias a cada ano, foi um dos principais temas debatidos no simpósio. Segundo Defeo, quase metade das praias desaparecerá até o final do século, conforme indicam pesquisas recentes.

Segundo Defeo, o ecossistema costeiro pode ser dividido em três zonas: a duna (pós-praia), que é a área acima da linha da maré alta, onde a areia se acumula pela ação do vento, formando montes ou “montanhas de areia”; a praia (face praial), faixa de areia que fica exposta durante a maré baixa e submersa durante a maré alta; e a parte submersa (antepraia), que se estende do limite inferior da maré baixa até a zona onde as ondas começam a quebrar.
“Essas zonas formam um ecossistema costeiro interconectado e essencial para o equilíbrio ambiental. Como estão interconectadas? O vento leva a areia da área seca para a zona de surf [parte submersa]. E as ondas, quando avançam, trazem os sedimentos de volta para a praia. Esse movimento bidirecional gera uma troca constante em que uma zona alimenta a outra. Quando vem um temporal, a duna serve de buffer [amortecedor]. Então, quando a urbanização elimina a duna, o resultado pode ser a destruição das casas à beira-mar”, disse o cientista.
Em estudo realizado em colaboração com pesquisadores brasileiros apoiados pela FAPESP demonstrou que, quando uma dessas três zonas costeiras é comprometida pela urbanização, os efeitos são nocivos para todo o ecossistema. O trabalho, liderado pelo pesquisador brasileiro Guilherme Corte, analisou a biodiversidade em 90 locais ao longo de 30 praias do litoral norte de São Paulo.
O artigo publicado na Revista Marine Pollution Bulletin, em 2023, apresentou o resultado da pesquisa feita por Guilherme Corte, sob a supervisão de Defeo, nas praias de Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela. A construção de quiosques, calçadões, e área de estacionamento na areia das praias e, inclusive, a limpeza mecânica, tiveram efeitos negativos.
O estudo apontou ainda que não apenas a urbanização que causa danos, mas também, o excesso de turistas presentes nas praias do Litoral Norte Paulista prejudicam áreas submersas, agravando a perda de espécies e alterando o equilíbrio do ecossistema costeiro. Segundo o estudo, em Ilhabela, por exemplo, a presença de grandes volumes de turistas durante a alta temporada reduziu a diversidade de poliquetas (animais exclusivamente marinhos e a grande maioria das espécies é bentônica, isto é vivem associados ao sedimento) e moluscos.
Os resultados, divulgados no periódico Marine Pollution Bulletin, mostraram que o número de banhistas é a variável de urbanização mais impactante e se correlaciona negativamente com a riqueza de espécies e a biomassa, especialmente nas zonas submersas. A presença de edifícios na areia e atividades de limpeza mecânica também reduzem a biomassa e a riqueza de espécies. Curiosamente, a abundância (número de indivíduos) foi maior em locais próximos a centros urbanos. Segundo os autores, isso se deve ao aumento de espécies oportunistas (como poliquetas), que se beneficiam do aporte de matéria orgânica associado à atividade humana.
“Sobretudo, o estudo demonstrou que os impactos humanos não ficam restritos ao local em que ocorrem [na areia seca]. Estressores como construções e alto número de visitantes na parte superior da praia afetam negativamente a biodiversidade nas zonas inferiores e submersas”, ressaltou.
Outro trabalho desenvolvido por Defeo em parceria com cientistas brasileiros, publicado na revista Frontiers in Marine Science, mostrou que um quinto das 315 praias analisadas ao redor do globo apresenta taxas de erosão intensas, extremas ou severas. O grupo analisou os diversos fatores por trás do fenômeno, entre eles aumento do nível do mar, padrão de vento e de ondas. “Observamos que as atividades humanas têm papel significativo, particularmente nas praias refletivas [com grande inclinação, que faz as ondas dissiparem sua energia de forma abrupta na praia, também conhecidas como praias de tombo] e intermediárias [que têm características tanto de praias de tombo como de praias mansas ou dissipativas]”, pontuou.
