Pesquisadores da USP mobilizam população para proteger coruja-buraqueira ameaçada pela urbanização

Foto capa: Casal de corujas e seus filhotes – Foto: José Fonseca/ Wikimedia Commons. Em Caraguatatuba, no Litoral Norte Paulista, onze tocas são monitoradas e preservadas pela secretaria municipal de Meio Ambiente

 

Jornal da USP/Texto: Rose Talamone

 

O avanço da urbanização sobre áreas rurais e periurbanas, ou seja, zonas de transição entre o espaço urbano consolidado e o meio rural, tem imposto desafios à conservação da fauna brasileira, especialmente na faixa de encontro do Cerrado e Mata Atlântica. Nesse cenário, pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP apostam na participação social como estratégia para sensibilizar a população sobre a preservação da Athene cunicularia, a popular coruja-buraqueira.

Frequentemente considerada adaptada ao ambiente urbano, a espécie já apresentou declínio e até extinção em áreas urbanas consolidadas da América do Norte, além de perda de conectividade genética. Esse cenário motivou políticas de recuperação no Canadá, com meta de ao menos 3 mil pares reprodutores e foco na proteção de habitat e redução de pesticidas. O histórico internacional serve como alerta, já que a presença visível da espécie não garante estabilidade populacional e pode ocultar impactos associados à expansão urbana.

A iniciativa é do Laboratório de Etologia e Bioacústica (Ebac) da FFCLRP e inclui monitoramento de ninhos em Ribeirão Preto e no distrito de Bonfim Paulista, com atenção à região do Parque Olhos d’Água, onde a urbanização substitui rapidamente áreas rurais e plantações de cana-de-açúcar. Nesse contexto, o estudo investiga a plasticidade fenotípica da espécie e seus limites diante das pressões urbanas.

Segundo a professora Patrícia Ferreira Monticelli, coordenadora do laboratório e orientadora do trabalho, “a plasticidade fenotípica é a capacidade de um organismo ajustar comportamento, fisiologia ou morfologia em resposta ao ambiente, sem mudanças genéticas imediatas. Não se trata de um processo evolutivo”. Essa capacidade pode ter valor adaptativo e decorrer de aprendizagem ao longo da vida do indivíduo.

O doutorando do Ebac Mauro Monteiro Cazentine acrescenta que a coruja-buraqueira apresenta mudanças comportamentais em ambientes urbanos, incluindo ajustes nos horários de atividade, aumento da tolerância à presença humana e alterações na dieta conforme a disponibilidade de presas.

Patrícia Monticelli, coordenadora do Laboratório de Etologia e Bioacústica (Ebac) da FFCLRP – Foto: Arquivo pessoal

Apesar disso, há limites adaptativos. Patrícia destaca que “não há plasticidade que vença a frequência com a qual tocas são soterradas pela construção e não se conhece a possibilidade de criar resistência à contaminação por pesticidas”, indicando que a adaptação comportamental não impede o declínio quando a mortalidade supera a capacidade reprodutiva.

Sinantropia e falsa sensação de segurança

 

Nesse contexto, a coruja-buraqueira é frequentemente classificada como espécie sinantrópica, associada a ambientes humanos e usuária de áreas abertas urbanas. Cazentine explica que essa classificação pode gerar falsa percepção de segurança populacional, pois a presença visível não garante viabilidade a longo prazo.

Em Ribeirão Preto, ele relata que “a urbanização provoca alterações comportamentais como maior exposição diurna, mais tempo fora do ninho e em vigilância, uso de estruturas artificiais como postes e placas de trânsito e maior tolerância à presença humana”.

Essas mudanças coexistem com ameaças diretas, incluindo atropelamentos, perda de ninhos por obras, redução de áreas de forrageamento e aumento da predação por cães, gatos, gambás e teiús. O pesquisador acrescenta que ainda há mortes associadas a crenças culturais que atribuem mau agouro à espécie.

Participação social

 

Entre os riscos menos visíveis está o soterramento de ninhos durante obras civis. Terrenos licenciados podem permanecer vazios por anos e serem ocupados pelas corujas antes do início das construções. “A ausência de nova triagem ambiental faz com que tocas sejam interpretadas como abandonadas. Chega o trator, mexe em toda aquela terra, os filhotes vão ser soterrados vivos e ninguém fica sabendo que animais foram mortos ali por causa dessa falta de informação”, diz Patrícia.

 

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem instrumentos jurídicos específicos para proteção das tocas, equiparando-as à proteção já existente para árvores ameaçadas. A coordenadora destaca que a espécie presta serviços ecossistêmicos relevantes ao controle de pragas urbanas, alimentando-se de baratas, escorpiões, ratos e camundongos. “A presença de tocas em áreas urbanas pode representar troca de serviços entre espécies, com benefício ao controle biológico natural”, garante.

Ninhos de corujas-buraqueiras são soterrados em obras – Foto: Mr Snrub /Wikimedia Commons

Nesse sentido, a participação social é apontada como eixo central do trabalho. Cazentini explica que a população pode colaborar indicando a localização de tocas por meio de formulário on-line divulgado nas redes do grupo de pesquisa. Patrícia acrescenta que a retomada de placas informativas em áreas de ocorrência e a participação conjunta da população e do poder público são essenciais para monitoramento e comunicação de perturbações às autoridades ambientais.

Os pesquisadores lembram que perturbar, capturar ou causar danos à fauna silvestre constitui crime ambiental passível de punição. Ao integrar monitoramento naturalístico, bioacústica, genética, análise trófica e ações educativas, o estudo busca ampliar a percepção pública sobre a espécie e oferecer subsídios para políticas públicas voltadas à coexistência entre sociedade e fauna silvestre em paisagens urbanizadas.

Dieta e análise isotópica

 

Como parte da abordagem científica que sustenta as ações de sensibilização, o Ebac utiliza, com a colaboração da ornitóloga Ana Carla Aquino, análise de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio, técnica que identifica a dieta dos animais por marcas químicas nos tecidos das corujas. Cazentini explica que “o que a coruja come deixa uma marca isotópica nos tecidos, penas, sangue ou regurgito”, permitindo distinguir presas urbanas, agrícolas e naturais e avaliar mudanças tróficas decorrentes da urbanização.

Outro eixo envolve monitoramento bioacústico. Os pesquisadores afirmam que “as vocalizações indicam defesa territorial, contato entre parceiros, alerta sobre predadores e presença de filhotes, além de fornecer sinais sobre reprodução ativa e níveis de estresse populacional”. Destacam ainda que “o ruído urbano pode interferir na comunicação, dificultar encontros reprodutivos e contribuir para isolamento genético”.

A produtividade reprodutiva e a diversidade genética são parâmetros centrais do estudo. Uma população saudável mantém reprodução frequente, produz cerca de três filhotes por ninhada e garante sobrevivência até a idade reprodutiva. Cazentini alerta que a fragmentação urbana pode aumentar a consanguinidade e tornar a espécie mais vulnerável a doenças, mudanças climáticas e perturbações locais.

Caraguatatuba

 

Toca de coruja preservada e protegida na praia de Massaguaçu

A Prefeitura de Caraguatatuba monitora e protege onze tocas de corujas no município. O monitoramento é feito por meio da Secretaria de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca, que tem intensificado as ações de proteção à fauna silvestre com a instalação de placas de sinalização e o cercamento das áreas, com o objetivo de preservar o ecossistema e a segurança dos animais.

 

 

Das tocas monitoradas, sete estão localizadas na orla da Praia do Massaguaçu, na região norte; duas na Praia do Indaiá, no centro;  e, duas na Praia do Aruan, na região sul.

 

 

As corujas constroem suas tocas diretamente no solo, em áreas descampadas e gramadas das orlas das praias e, utilizam esses locais como abrigo, espaço de descanso e reprodução. A proteção dessas áreas é fundamental, especialmente durante o período em que os filhotes permanecem sob os cuidados dos pais.

 

 

Além de seu valor ecológico, as corujas desempenham um papel essencial no equilíbrio ambiental, atuando como controladoras naturais de pragas, como roedores e insetos. Essa função contribui diretamente para a saúde humana, agrícola e ambiental, além de fazer dessas aves importantes indicadoras da qualidade do meio ambiente.

 

 

A preservação das tocas garante não apenas a segurança dos animais, mas também das pessoas. A aproximação indevida pode causar estresse às aves, colocar os filhotes em risco e até provocar reações defensivas, resultando em acidentes. O respeito à sinalização exerce papel fundamental na promoção de um convívio harmonioso entre a fauna silvestre e o uso urbano dos espaços públicos.

 

 

A Secretaria de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca reforça que a colaboração da população é indispensável para o sucesso dessas ações. Respeitar as placas, manter distância das áreas cercadas e evitar qualquer tipo de interferência nas tocas são atitudes simples que fazem diferença na conservação da biodiversidade local.

 

 

O município também incentiva a educação ambiental e o apoio a projetos voltados à proteção das corujas. Em caso de avistamento de tocas não sinalizadas, a orientação é entrar em contato com a Secretaria de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca pelo e-mail meioambiente@caraguatatuba.sp.gov.br ou pelo telefone (12) 3897-2530.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *