Comerciantes da Martim de Sá, em Caraguatatuba, suspeitam que molhes construídos no rio Juqueriqurê “aceleraram” a erosão na praia e cobram a “engorda” da faixa de areia pela prefeitura.
Por Salim Burihan
A erosão na Praia Martim de Sá, uma das mais frequentadas de Caraguatatuba, no Litoral Norte Paulista, é um problema antigo, que vem se agravando ano a ano. Os comerciantes estabelecidos na orla e moradores do bairro aguardam o resultado dos estudos realizados recentemente pela prefeitura para saber que medidas deverão ser adotadas para a recuperação da praia.
Erosão praial é a perda de sedimentos(areia) da praia, resultando no recuo da linha da costa, um processo natural intensificado por fatores humanos como urbanização desordenada e obras costeiras, além de mudanças climáticas e aumento do nível do mar, comprometendo o balanço natural de recebimento e perda de material e ameaçando ecossistemas e infraestruturas litorâneas.

A Martim de Sá passa por um processo de erosão praial há mais de 20 anos, segundo moradores e comerciantes estabelecidos junto a orla. A erosão tem sido provocada pela ocupação desordenada de sua faixa de areia e acelerada pela sobreelevação do nível do mar, causada pelas mudanças climáticas, ressacas e maré altas.

Alguns comerciantes e moradores suspeitam que os molhes construídos no rio Juqueriquerê, estejam acelerando ainda mais a degradação da praia. Os molhes são muros de pedra que adentram o mar. Os muros de pedra foram iniciados em 2022 e finalizados em 2024, ainda na administração do ex-prefeito Aguilar Júnior, a um custo de R$ 42,5 milhões. O molhe Norte tem 1.200 metros de comprimento; o molhe Sul, 1.350 metros. Segundo a prefeitura, a obra, composta por blocos de rochas compactadas, tem a finalidade de impedir a erosão das margens e dissipar a força das ondas.
Segundo os comerciantes mais antigos, a praia já teria perdido, em alguns trechos, cerca de 50% de sua faixa original de areia, praticamente, algo em torno de 50 a 80 metros de sua orla. A erosão ocorre mais entre o meio e o canto direito da praia. Os comerciantes, que ocupam o lado direito da praia, o mais atingido pelo erosão, cobram da prefeitura a engorda da faixa de areia.

“De 2022 para cá a erosão foi mais intensa. em frente ao meu quiosque( o último no lado direito da praia) já perdemos cerca de 50 metros de faixa de areia. A areia que saí daqui está sendo depositada no outro canto da praia. Suspeito que esse processo erosivo se intensificou a partir da construção dos molhes. Isso tem que ser analisado”, comentou Ari Barbosa, dono do Quiosque Canto Bravo, um dos mais visitados da Martim de Sá.
Alguns artigo publicados na internet confirmam que os molhes ou muros de pedra geram erosão costeira ao interromper o fluxo natural de areia e sedimentos, alterando o balanço sedimentar da praia, o que faz com que ela perca mais material do que recebe, avançando o mar e causando recuo da linha de costa, agravado por eventos climáticos extremos e urbanização desordenada.
Ari Barbosa defende um estudo mais aprofundado sobre o que vem ocorrendo na Martim de Sá e, inclusive, a possibilidade de “engorda” da praia pela prefeitura. Segundo ele, a engorda da praia irá beneficiar o turismo, os comerciantes, os frequentadores da praia. “Do jeito que está não pode ficar, a praia está reduzindo a cada dia”, lamentou.
As obras de engorda são intervenções de engenharia costeira que adicionam areia à praia para ampliar a faixa de areia, combatendo a erosão, protegendo a orla e impulsionando o turismo, como ocorreu em Balneário Camboriú e outras praias do país.
Naldo Gomes da Silva, que gerencia o Quiosque do Zequinha, que está estabelecido na praia desde 1973, também sofre com a erosão que atinge a praia. “Temos perdido cada vez mais espaço em frente ao quiosque e ocupado cada vez mais as laterais”, conta Naldo. Ele também defende a ideia da prefeitura de iniciar os estudos técnicos para identificar as causas do problema e agilizar as soluções. Naldo disse que há alguns aos atrás, os donos de quiosques da Martim de Sá teriam apresentado a proposta de engorda da praia ao Conselho Municipal de Turismo.
Prefeitura

A prefeitura iniciou em novembro passado uma vistoria técnica nas praias da Martim de Sá, Tabatinga e na Mococa, e ainda, nos Molhes do Rio Jequeriquerê, com o objetivo de monitorar a dinâmica costeira do município e subsidiar futuros estudos ambientais. A ação, que integra o trabalho conjunto entre o Governo do Estado de São Paulo e Caraguatatuba, reuniu especialistas e representantes das duas partes para uma análise aprofundada da situação.
A vistoria contou com a participação da Profª. Dra. Célia Regina de Gouveia Souza, pesquisadora científica do Departamento de Geociências, Gestão de Riscos e Monitoramento Ambiental do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA/SEMIL), uma das mais conceituadas em erosão praial no país, além de representantes do Gerenciamento Costeiro do Litoral Norte da prefeitura.
A pesquisadora científica, Dra. Célia Regina de Gouveia Souza, deve elaborar um relatório técnico detalhado com as conclusões da vistoria, que deverá ser entregue à Prefeitura. Além disso, o documento servirá como base para a continuidade dos estudos, em parceria com o Estado, para definir ações prioritárias dos locais visitados. O relatório ainda não foi finalizado.
Segundo ela, será uma parecer técnico com recomendações para a mitigação dos efeitos. Sobre a questão dos molhes, a pesquisadora científica preferiu ainda não se manifestar. Ela comentou que é melhor deixar essas informações para quando o laudo for concluído. Ela antecipou apenas que de uma maneira geral, a erosão aumentou em todas as praias. A Dra. Célia Regina de Gouveia Souza estuda as praias paulistas desde a década de 60 e publica de cinco em cinco anos um relatório sobre as praias.
A prefeitura de Caraguatatuba, a Secretaria de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca de Caraguatatuba, informou esta semana, que os estudos técnicos sobre os processos de erosão costeira nas praias do município, iniciados no ano passado, ainda estão em andamento.
Segundo a prefeitura, dessa forma, ainda não há resultados finais ou definição de soluções a serem apresentadas, uma vez que as medidas a serem adotadas dependem diretamente dos dados consolidados desses estudos. A pasta aguarda o recebimento e a consolidação dos relatórios técnicos elaborados pelos órgãos e especialistas responsáveis. A conclusão dos estudos deve ser entregue nos próximos meses

