O Rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba, o maior rio do Litoral Norte, sedia passeios de barco ou stand-up que oferecem inúmeras atrações
Por Salim Burihan
Quem visita ou circula por Caraguatatuba durante o verão não deve deixar de conhecer o Rio Juqueriquerê, o maior rio do Litoral Norte. O Rio Juqueriquerê teve e tem grande importância para Caraguatatuba. Muito da história da cidade tem profunda relação com o rio, cujo nome, tem origem tupi-guarani e significa planta dorminhoca ou sensitiva , uma plantinha que ao ser tocada murcha e que existe em abundância em suas margens.
Caraguatatuba começou a ser povoada no início de 1600, através das sesmarias- a primeira que se conhece ocupou a bacia do Rio Juqueriquerê em 1609 e foi doada pelo capitão-mor Gaspar Conqueiro aos antigos moradores de Santos, Miguel Gonçalves Borba e Domingos Jorge, como prêmio por serviços prestados a Capitania de São Vicente. O Juqueriquerê serviu como o divisor das Capitanias de Santo Amaro e São Vicente.

O Juqueriquerê é o maior rio navegável do Litoral Norte. É formado pelo encontro dos rios Pirassununga e Camburu e tem 13 quilômetros de extensão entre sua nascente e a foz na praia da Flexeiras, onde deságua. Tem profundidade que varia de 2,10 a 1,30 metros. Em sua foz, bastante assoreada, em períodos de maré baixa, sua profundidade chega a atingir 30 centímetros. Possui manguezais e rica flora e fauna.
O rio foi responsável pela exportação de laranja e banana para a Inglaterra, a partir de 1927, quando da implantação da Fazenda São Sebastião, mais conhecida como Fazenda dos Ingleses. O Juqueriquerê também serviu como divisa entre os municípios de Caraguatatuba e São Sebastião entre 1636 e 1948, quando um decreto estadual, transferiu a divisa das duas cidades para o rio Perequê-Mirim. O rio corta importantes bairros de Caraguatatuba como o Porto Novo, Barranco Alto e Morro do Algodão.
Com a desativação da Fazenda dos Ingleses, na década de 60, o rio deixou de receber as chatas que transportavam frutas e hortifrutigranjeiros para a Inglaterra. Na década de 70, passou a receber as marinas náuticas. As margens do Juqueriquerê estão 13 marinas; um Entreposto de Pesca e um Estaleiro.
Uma das grandes atrações do rio é a sua ponte em arcos, construída na década de 30, uma das duas ainda existentes no estado de São Paulo, segundo o DER. Uma ponte no mesmo modelo existe em Cachoeira Paulista. A ponte com quarenta metros de comprimento por oito metros de altura (arcos) é considerada uma verdadeira obra de arte pela engenharia. Antigamente, pontes com arcos, eram necessárias para dar sustentação a grandes vãos como era o caso do rio Juqueriquerê. Antes da construção da ponte, moradores, animais e carros eram transportados por chatas de madeira.

Outro local que vale a pena visitar, às margens do rio, é o Entreposto de Pesca do Porto Novo que reúne os pescadores artesanais da Zona Sul de Caraguatatuba. O Entreposto possui espaço para atracamento e manutenção dos barcos, além de boxes para a comercialização dos pescados frescos. Abriga, ainda, a sede da Associação dos Pescadores (ASSOPAZCA), que gere o espaço e promove anualmente o Festival da Tainha e dos Pescados Caiçaras, em parceria com a Prefeitura Municipal.

Em 2023, foi criado em suas margens, o Parque Natural Municipal do Juqueriquerê, a primeira unidade de conservação de proteção integral municipal, cujos objetivos básicos são a preservação dos ecossistemas e biodiversidade e a realização de pesquisa científica. O parque ocupa uma área de 35.000,00m², e está situado na maior bacia hidrográfica do litoral norte, a do Rio Juqueriquerê. O plano de manejo e as obras de implantação foram custeadas através do FID do Governo do Estado no valor total de R$ 1,7 milhão. O parque é gerido pela administração pública municipal.
O parque possui um centro de educação ambiental que inclui uma biblioteca e um auditório com capacidade para 40 pessoas. Possui também um espaço para exposições (aprox. 45m²), orquidário, centro de pesquisas, torre de madeira para observação de aves, deck com vista para o Rio Juqueriquerê e alojamento para pesquisadores, além de muita área verde e espaços para atividades ao ar livre. O parque está aberto para visitações de terça à sexta-feira das 9h30 às 16h30, e aos sábados, domingos e feriados das 9h às 16h.

Recentemente, recebeu dois molhes, obras orçadas em R$ 60 milhões pela prefeitura da cidade. A obra foi executada na administração de Aguilar Júnior(PL). Começou em 2020. O molhe Norte tem 1.200 metros de comprimento e o molhe Sul, 1.350 metros. A obra, segundo anunciou a prefeitura em 2024, com contenção maciça, composta por blocos de rochas compactadas, tinha a finalidade de impedir a erosão das margens e dissipar a força das ondas. O acesso aos molhes está interditado desde agosto do ano passado devido a problemas estruturais que oferecem riscos aos visitantes, segundo a prefeitura.
Várias empresas oferecem passeios pelo rio. Os passeios podem ser feitos de barco, de lancha, de caiaque ou stand-up e oferecem muitas atrações, além da contemplação da natureza, com paisagens de manguezais, restingas e Mata Atlântica e da rica fauna e flora local. A observação de aves é feita ao logo de todo o passeio.
O roteiro da navegação fluvial inclui passagem por hotéis, como o Ilha Morena, um dos mais antigos da região; pelas marinas, como a Marina Juqueriquerê, a pioneira na região; por oficinas de barcos e pelo antigo caís da Fazenda dos Ingleses. A arquitetura da Fazenda dos Ingleses em Caraguatatuba (1927-1968) são construções típicas inglesas construídas pela companhia inglesa, The Lancashire Gnral Invstment Company, para produção agrícola e exportação de frutas para a Europa. O antigo caís e algumas casas ainda podem ser vistas ao longo do passeio.
Fazenda dos Ingleses

A antiga fazenda dos Ingleses é uma das maiores atrações do passeio ao longo do rio. Trata-se de uma das três maiores fazendas do gênero na América Latina, a Fazenda dos Ingleses (1927 a 39) tinha quatro mil alqueires de terras na grande planície entre Caraguatatuba e São Sebastião.
Em seu auge, 1930, cultivava quatro milhões de pés de banana e laranja, exportados diretamente para Londres em navios ingleses que fundeavam no Canal de São Sebastião.

Em seu interior, 120 quilômetros de linhas férreas escoavam a produção até o cais no Rio Juqueriquerê, onde era embarcada em chatões e levada para embarque nos navios.
O empreendimento atraiu mão de obra de toda a região, desde Angra dos Reis até Santos, incluindo Paraibuna. Eram quatro mil trabalhadores residentes. Provocou aumento da população, dos meios de comunicação, incremento ao comércio, e aumento das receitas municipal, estadual e federal. E colocou Caraguatatuba no mapa das exportações brasileiras.

A fazenda possuía quadras de tênis, campos de golfe e polo, cinema, e promovia campeonatos de futebol que reuniam até trinta times. A decadência veio com a 2a. Guerra Mundial (1939/45), e com a catástrofe de 18 de março de 1967, quando uma tromba d’água na serra soterrou as plantações e quase destruiu Caraguatatuba, provocando a morte de mais de três mil pessoas.

Na década de 90 a área foi adquirida pelo grupo Serveng, que lá instalou a Serramar, projeto pecuário de alta tecnologia. Hoje abriga também o parque de tancagem de gás da Petrobrás, o shopping Serramar e o Hospital Regional.

