A USP (Universidade de São Paulo) vai homenagear nesta sexta-feira, dia 5, os estudantes de Geologia perseguidos pela ditadura militar, Ronaldo Mouth Queiroz e Sidney Fix Marques dos Santos. A família de Sidney Fix viveu muitos anos em Caraguatatuba, no Litoral Norte Paulista, onde possuía casa de veraneio desde 1952.
A solenidade vai ocorrer às 14 horas, no pátio do Instituto de Geociências, localizado na rua do Lago, 562, na Cidade Universitária, no Butantã. Queiroz e Fix foram obrigados a abandonar o curso em função da perseguição empreendida pela ditadura militar contra opositores do regime.
Queiroz era da ALN, a Ação Libertadora Nacional, e foi fuzilado pela repressão, em 1973, na avenida Angélica, zona oeste da capital paulista. Fix era dirigente do PORT(Partido Operário Revolucionário Trotskista), se exilou com a companheira em Buenos Aires, na Argentina, em 1972 e desapareceu em 1976.
Seu desaparecimento foi reconhecido pelos órgãos de direitos humanos e justiça argentinos e registrado na Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, a Conadep. Nesta sexta, familiares recebem o diploma honorífico que concede o título de Geólogo a Sidney Fix Marques dos Santos.
O diploma de Queiroz foi entregue a amigos, em dezembro de 2023, e posteriormente doado ao Cepege, o Centro Acadêmico da Geologia, porque seus familiares já haviam falecido. Em abril deste ano, o Cepege também deu o nome de Mouth Queiroz à entidade estudantil.
Dona Olga

Dona Olga Marques dos Santos(Foto), mãe de Sidney Fix Marques dos Santos, passou os últimos anos de sua vida em Caraguatatuba. Ela faleceu em 2013, aos 95 anos e foi sepultada, em São Paulo. Morreu sem nunca ter notícias do paradeiro do filho. O pai de Sidney, que teve a saúde abalada pelo desaparecimento do filho, faleceu em 1991.
Dona Olga vivia em Caraguatatuba há muitos anos. Viúva, caminhava pelas ruas da cidade sempre sozinha, meiga, mas de olhar muito triste. Dona Olga era integrante do movimento humanitário internacional, “Mães da Praça de Maio”, grupo formado por centenas de donas de casa argentinas ( e brasileiras) que se reuniam nas décadas de 70 e 80 em frente da Casa Rosada, sede do governo argentino, para cobrar informações do governo sobre o paradeiro de seus filhos desaparecidos durante o governo militar. Cerca de 30 mil pessoas desapareceram durante a ditadura argentina. Em Caraguatatuba, poucas pessoas sabiam de sua triste história.
O filho de Olga, o brasileiro Sidney Fix Marques dos Santos, desapareceu na argentina em 15 de fevereiro de 1976, quando tinha 36 anos. Dona Olga mantinha casa de veraneio em Caraguatatuba desde 1952. Sidney era jornalista e passou boa parte da adolescência e juventude curtindo suas férias nas praias de Caraguatatuba.
Sidney foi sequestrado em uma rua de Buenos Ayres, na Argentina, por agentes de segurança daquele país no ano de 1976 e nunca mais foi visto. A família contratou advogados argentinos, fez insistentes apelos junto ao governo local, mas nunca teve quaisquer informações sobre Sidney.
Em 2011, entrevistei dona Olga. Ela afirmou que não tinha mais dúvidas de que o filho estava morto. Segundo ela, em reportagem publicada em uma revista brasileira em 1986, o entrevistado, pessoa que teria estado preso com o filho dela na Argentina, declarou que Sidney teria morrido após três sessões de tortura. O corpo nunca foi encontrado.
Em 1986, na edição 270 da Revista Senhor, o torturador argentino Claudio Vallejos, conhecido como El Gordo, que atuou no centro de repressão Escola de Mecânica da Marinha (Esma), onde cerca de 5 mil pessoas foram mortas e desaparecidas durante a ditadura argentina (1976-1983), falou sobre o destino de diversos brasileiros nas mãos da ditadura argentina, entre eles, o do filho de dona Olga, Sidney Fix Marques dos Santos. O corpo, no entanto, nunca foi encontrado.
“Sidney era muito inteligente. Com cinco anos já lia o jornal”, contava dona Olga. Ainda jovem, entrou na USP (Universidade de São Paulo). Iniciou o curso de geologia. Lá, se envolveu com a política. Eram os anos 60, época de muita liberdade e ele achava que podia mudar o mundo”, contava dona Olga.
Segundo ela, Sidney abandonou o curso para se dedicar à militância política. Foi editor responsável do jornal “Frente Operária”, órgão do Port (Partido Operário Revolucionário Trotskista). Ele entrou para a clandestinidade desde o golpe militar de 64. “Uma vez, agentes de segurança entraram armados em casa e reviraram tudo atrás dele; nunca vou me esquecer disso”, lembrava ela.
A igreja ajudou a proteger Sidney contra as ações dos agentes de segurança, que viviam em seu encalço. Com prisão preventiva decretada devido ao seu envolvimento político, Sidney vivia escondido. Ainda clandestinamente, em 1972, mudou-se para a Argentina, onde passou a trabalhar como programador da IBM. Ele foi sequestrado às 21h30 do dia 15 de fevereiro de 1976, por agentes da Superintendência de Segurança Federal.
A família realizou esforços junto aos governos da Argentina e do Brasil, à Organização dos Estados Americanos, Organização das Nações Unidas e até ao Congresso Americano, sem qualquer resultado. A mulher de Sidney, Leonora, e a filha, Luiza, receberam asilo político do governo francês e viviam naquele país.
“Meu filho não era bandido, não pegou em armas, não assaltou banco, não matou ninguém. Meu filho era muito inteligente e criou um jornal operário… Apenas isso”, afirmava dona Olga. Ela se emocionava todas as vezes que falava do filho.

