Para os indígenas Guarani Mbya, saúde do corpo e do território são indissociáveis

Pesquisadora acompanhou o dia a dia de aldeias indígenas no litoral paulista para entender como unir os saberes tradicionais às políticas de cuidado

 

Jornal da USP: Texto de Diego Facundini e Arte de Gustavo Radaelli

 

Para elaborar sua dissertação de mestrado – Saberes, práticas e o cuidado em saúde Guarani Mbya: diálogos entre corpo e tekoa – apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, a assistente social e pesquisadora Bruna Freire se voltou a duas questões centrais: como os povos indígenas Guarani Mbya entendem e praticam saúde? Como articular esse entendimento com as políticas públicas de cuidado voltadas a essas comunidades?

Para respondê-las, ela acompanhou de perto o dia a dia de duas aldeias no Litoral Sul do estado de São Paulo, a tekoa Paranapuã, no município de São Vicente, e a tekoa Nhanderekoa, em Itanhaém. Em colaboração com os membros das comunidades, Bruna Freire procurou entender de que maneira aspectos como o sonho, o profetismo e a filosofia do Bem Viver (teko porã, em guarani), junto com o uso de plantas medicinais, são essenciais para a concepção de saúde dos Guarani Mbya.

Tekoa, palavra guarani, é um termo que significa muito mais do que só “aldeia”. Junção dos morfemas “teko” (vida) e “a” (lugar) – um lugar no qual se vive de acordo com um modo de ser –, ele comunica uma cosmovisão que enxerga como uma só coisa os seres vivos e não vivos, os humanos, a floresta e o Cosmo. Todos são frutos da mesma matéria, partes indissociáveis que se emaranham em uma relação de reciprocidade e equilíbrio.

Tal é a filosofia do Bem Viver (teko porã) dos Guarani Mbya, uma noção de comunhão, reciprocidade e integralidade entre as pessoas, os espíritos e a natureza. “Eles entendem que, para que o corpo esteja saudável, para que realmente exista a saúde, é preciso que todo o ambiente seja saudável. Então, não existe saúde se você não está conseguindo plantar, porque, se você não está conseguindo plantar, você não está comendo o alimento verdadeiro. Logo, o seu espírito vai enfraquecer e seu corpo vai adoecer”, explica a assistente social em entrevista ao Jornal da USP.

Mãos na terra

A pesquisa foi conduzida com as mãos em contato com a terra, plantando culturas tradicionais Guarani, como variedades da batata-doce e de milho, e aprendendo sobre as plantas medicinais com os indígenas. “Uma das coisas que o Xeramõi [líder espiritual masculino da aldeia] falou foi que eu só ia aprender se eu plantasse”, relata.

Era nesses momentos, de estar mexendo na terra junto com eles, que eu de fato colhia parar o meu diário de campo. Eu nunca estava com caderninho ali na hora, era sempre com a mão toda suja”, diz Bruna. À noite, a pesquisadora registrava tudo no seu diário de campo.

Ela relembra, por exemplo, uma planta “bem roxinha” à qual foi apresentada, a xejapopoã, “que é uma planta cicatrizante”. “Geralmente ela é usada para mulheres que acabaram de ter bebês. Às vezes, quando o bebê nasce muito grande, que tem um pouco de dilatação, é essa planta que tem de ser usada para poder fechar aquela ferida. Eles falaram que até facada aquela planta cura, e eu fiquei, nossa, uma plantinha dessa?”, brinca.

Explorando componentes da cultura, do cotidiano e do modo de vida dos Guarani Mbya, a pesquisa de Bruna também serve como subsídio para a elaboração de um modelo de atenção mais eficiente, aproximando o sistema de saúde dos saberes tradicionais e lutas populares dos povos indígenas. Nesse sentido, até mesmo o constante deslocamento espacial das comunidades deveria ser levado em conta no planejamento das políticas, pois também faz parte de seus modos de vida.

Plantio na tekoa Paranapuã – Foto: Acervo do Coletivo Guarani Mbya Reko

Segundo Leandro Giatti, professor da FSP e orientador da pesquisadora, “tudo isso diz respeito a variáveis que vão incidir no resultado de saúde da população: maior longevidade, prevenir doenças que a gente conhece e que são, portanto, evitáveis, oferecer mais qualidade de vida, uma atenção mais adequada, inclusive em termos, digamos, de traduções interculturais”.

O braço do Sistema Único de Saúde (SUS) responsável pelo cuidado especializado com as populações indígenas é a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), que presta atendimento nas aldeias. No entanto, segundo Bruna, o serviço sofre com a falta de profissionais, trabalho precarizado e despreparo para o atendimento de cada comunidade em suas especificidades.

Sentadas em cadeira numa roda, em uma aldeia, três pessoas tocam instrumentos musicais. Um homem de camisa listrada toca uma rabeca, outro de camiseta rosa toca uma flauta, e um terceiro, de costas para a câmera, de camiseta azul, toca violão.

Indígenas na tekoa Nhanderekoa – Foto: Acervo do Coletivo Guarani Mbya Reko

As tekoa

Os povos Guarani se espalham por quatro países da América do Sul: Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. Heterogêneas entre si, suas três etnias – Mbya, Nhandéva e Kaiowá – são unidas por uma língua em comum e compartilham aspectos religiosos e culturais. No Brasil, as populações Guarani Mbya estão dispersas principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

As aldeias do litoral paulista visitadas por Bruna Freire são relativamente recentes. Paranapuã tem pouco mais de 20 anos, marcados por disputas entre os moradores e o poder público pelo território. Como todas as tekoa, é fruto de um sonho trazido por um ancestral. “Entre os guaranis, para eles irem para um território, qualquer território, precisam sonhar com aquele território”, explica a pesquisadora. Nesse caso, foi um “sonho de cura vindo do mar”, sonhado pela Xejary (líder espiritual feminina da aldeia) Erundina Para Poty há mais de 30 anos.

Sua retomada ocorreu em 2004, quando mais de 60 indígenas passaram a ocupar um território à beira-mar dentro do Parque Estadual Xixová-Japuí, localizado entre os municípios de São Vicente e Praia Grande, na Região Metropolitana da Baixada Santista no litoral do Estado de São Paulo. O parque é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral desde 1994, o que significa que o uso de seus recursos naturais é restrito. Isso representou um entrave para o modo de vida dos indígenas moradores da região, que por muito tempo sobreviveram apenas com base em doações.

Em 2016, o Governo do Estado de São Paulo moveu uma ação de reintegração de posse contra os moradores da aldeia. Porém, um acordo judicial de 2022 garantiu, em caráter provisório, a permanência dos indígenas, além da possibilidade de autonomia para o uso da terra em atividades essenciais como plantio, pesca e caça. Hoje, ela ocupa uma região aproximada de nove hectares e abriga cerca de 66 pessoas, estando ainda em processo de demarcação pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

Cotidiano na tekoa Nhanderekoa – Foto: Jera Poty Melissa/Rede de Atenção à Pessoa Indígena

Já Nhanderekoa, a mais nova, é fruto de uma ocupação que ocorreu em 2022. Foi retomada por famílias das tekoa Paranapuã e Tangará, esta última também localizada em Itanhaém. Lá, os indígenas realizam plantio com maior liberdade, apesar das dificuldades do terreno, pois a aldeia é localizada em uma terra envolta em montanhas de lixo enterrado.

Trabalhando na pesquisa em parceria com as famílias da aldeia, Bruna também pôde contribuir para melhorias infraestruturais em Nhanderekoa — energia elétrica, abastecimento de água e educação infantil, além da construção de uma cozinha comunitária — e atividades de geração de renda para seus habitantes. Isso tudo por meio de contatos com coletivos como o Guarani Mbya Reko, buscando editais e meios legais para suprir as necessidades da aldeia por meio da política pública.

“Porque, também, se a gente for esperar só do poder público, não vai acontecer tão cedo. Demora, né? A Paranapuã ficou, por exemplo, 15 anos para conseguir receber um direito básico, que era poder plantar para poder comer”, critica.

Plantio na tekoa Paranapuã, artesanato indígena e dança xondaria na tekoa Nhanderekoa – Fotos: Acervo do Coletivo Guarani Mbya Reko

*Estagiário sob orientação de Silvana Salles e Antonio Carlos Quinto

**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado

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