As prefeituras de São Sebastião e Caraguatatuba, continuam questionando o Estado por informar “equivocadamente”, segundo as administrações, a existência de casos suspeitos de intoxicação por metanol em seus municípios. O último balanço da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) divulgado no sábado (11) informava que haviam 25 casos confirmados por intoxicação por metanol e outros 160 em investigação, sedo dois deles, em Caraguatatuba e São Sebastião, no Litoral Norte Paulista. Um total de 189 foram descartados após análises clínicas e epidemiológicas, dois deles, em Caraguatatuba, no início da semana passada. Uma nova atualização de casos deve ser divulgada na tarde desta segunda-feira, dia 13.
A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) mantinha na sua listagem de sábado(11), dois casos em investigação no Litoral Norte sendo um, em Caraguatatuba e outro, em São Sebastião. A secretaria confirmava o descarte de outros dois casos anteriores que estavam sendo investigados em Caraguatatuba.
A prefeitura de São Sebastião, por meio da Secretaria de Saúde (Sesau), informou nesta segunda-feira, dia 13, que não há, neste momento, nenhum caso confirmado ou em investigação de intoxicação por metanol no município. A prefeitura sebastianense esclareceu na nota enviada nesta segunda(13) ao NP, que um caso chegou a ser avaliado recentemente como suspeito, tendo sido realizados todos os exames laboratoriais necessários conforme o protocolo clínico recomendado pelas autoridades de saúde. Segundo a prefeitura, o resultado foi negativo para intoxicação por metanol, e o caso foi devidamente descartado pelas equipes médicas.
A Administração Municipal de São Sebastião reforçou que mantém monitoramento constante da rede hospitalar e dos atendimentos de urgência e emergência, em conjunto com os órgãos de vigilância em saúde, garantindo resposta imediata diante de qualquer suspeita que venha a surgir.
A prefeitura de Caraguatatuba já havia se manifestado sobre o assunto na sexta-feira(10), quando informou que a cidade permanecia sem nenhum caso de intoxicação por metanol. A prefeitura informou que teve quatro atendimento por pessoas intoxicadas por álcool, mas em nenhuma delas, os exames comprovaram que a intoxicação teria sido por metanol. O último atendimento, segundo a prefeitura, teria ocorrido no dia 7 de outubro e desde então não ocorreu nenhum caso de intoxicação por álcool no município, por isso, a prefeitura disse discordar da informação repassada pelo estado na sexta(10) e sábado(11).
Confira como é o exame para detectar intoxicação por metanol

Quando um paciente chega com sintomas compatíveis com intoxicação por metanol (como tontura, dores abdominais intensas e confusão mental), os profissionais coletam amostras de sangue e urina. A ingestão de 10 ml da substância pode causar lesões no nervo óptico e, em doses iguais ou superiores a 30 ml, levar a óbito.
É essencial que a coleta nas unidades de saúde ocorra rapidamente, já que o metanol tem uma meia-vida curta, de cerca de 24 horas, de acordo com o professor de Química da USP Bruno de Martinis. “Se a amostra for colhida dias depois da ingestão, o metanol já pode ter sido eliminado do organismo. Por isso, a coleta e o congelamento imediato são fundamentais”, destaca.
Uma vez coletadas, as amostras são enviadas para o laboratório da USP em Ribeirão Preto, onde passam por um processo chamado cromatografia em fase gasosa. Essa técnica separa os compostos presentes no sangue, urina ou até fragmentos de tecidos. O método utiliza um sistema conhecido como headspace, que analisa apenas a fase de vapor da amostra, o que entrega resultados em até uma hora e com alta precisão.
O procedimento é detalhado: o material precisa ser colocado em pequenos frascos de vidro lacrados, que são aquecidos e agitados dentro do equipamento. Com o calor, os compostos voláteis, como o etanol e o metanol, passam para a fase de vapor, enquanto o restante do líquido ou tecido permanece no fundo do frasco. Em seguida, o aparelho coleta automaticamente esse vapor e o injeta no sistema de análise, sem abrir o frasco. Isso evita contaminações e perdas, garantindo confiabilidade no resultado.
Segundo Martinis, o tempo total para cada exame leva menos de uma hora. “O preparo da amostra leva cerca de dez minutos, e a análise em si, cerca de 30 a 40 minutos. O equipamento trabalha de forma contínua, uma amostra após a outra, o que permite processar várias análises em sequência”, explica o pesquisador. O resultado é expresso em gráficos que indicam a presença e a quantidade das substâncias analisadas.
“Nós conseguimos identificar o metanol em concentrações bem menores do que o necessário para caracterizar a intoxicação”, afirmou Martinis. “Nosso limite de segurança é de 100 miligramas por litro, enquanto a nota técnica considera 200 miligramas por litro como ponto de risco. Isso garante que nenhuma amostra positiva passe despercebida”, afirma o professor. A presença do etanol e de outros compostos também é detectada, o que permite diferenciar uma embriaguez comum de um quadro de envenenamento químico causado pelo metanol.
Os resultados laboratoriais estão entre os critérios que permitem confirmar, descartar ou manter sob investigação os casos notificados. As coletas continuam sendo feitas em unidades de saúde de todo o território paulista. O socorro em até 6 horas após o início dos sintomas é fundamental para evitar o agravamento e sequelas. O Estado de São Paulo mantém estoque do antídoto contra o metanol, o álcool etílico absoluto (etanol 99,9%), disponível em unidades de referência. As unidades de saúde, tanto públicas quanto privadas, estão preparadas para realizar o atendimento, que pode incluir a administração do antídoto, exames laboratoriais e avaliação oftalmológica.
O Estado de São Paulo reforçou o estoque de ampolas de álcool etílico absoluto com 3 mil unidades, totalizando 5,5 mil. Além do trabalho técnico dos laboratórios e da vigilância em saúde, o grupo atua em parceria com o setor de bebidas para reforçar a fiscalização e orientar consumidores e comerciantes. As medidas incluem treinamento de agentes públicos, campanhas educativas e propostas de endurecimento das regras contra a falsificação.

